No dia 14 de março de 1986, escrevi no jornal “Correio de Notícias”, de Curitiba, um perfil do mais importante político da história de Maringá. Vamos rever, com algumas alterações, o texto sobre o deputado federal Renato Celidônio. Membro de tradicional família paulista, seu pai Hugo Celidônio Gomes dos Reis, foi um dos principais acionistas do Banco de São Paulo, e seu irmão, José Hugo Celidônio, foi considerado no século passado o mais famoso e consagrado mestre da gastronomia brasileira. Na mocidade, Renato Celidônio foi líder estudantil de esquerda comprometido com o ideário social democrata e com uma visão progressista do processo político brasileiro. Em 1968, numa das nossas conversas no bar do restaurante do Hotel Bandeirantes na Cidade Canção, sabendo da minha posição de defensor do marxismo-leninismo, afirmou que ele se posicionava como socialista fabiano, e ao contrário dos comunistas que defendiam uma revolução armada, os fabianos como ele defendiam uma evolução gradual rumo ao socialismo. E citou os nomes de Bernard Shaw, Virginia Wolf e Bertrand Russel como expoentes da “Sociedade Fabiana”, criada na Inglaterra no fim do século XIX, cujo objetivo era a busca dos ideais socialistas por meios graduais e reformistas.
Eleito vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), na gestão do presidente Roberto Gusmão, foi guindado a presidente interino da entidade e chefiou a delegação brasileira que participou do Congresso da Juventude Mundial na cidade de Praga, capital da Tchecoslováquia, em 1949. Engenheiro agrônomo, cursou a Escola Superior de Agricultura do Estado do Paraná e depois da formatura emigrou para o Norte do estado, onde participou nas décadas de 50 e 60 do processo de colonização daquela vasta área, abrindo dezenas de fazendas onde plantou milhões de pés de café com seu braço direito — o administrador José Firmino Barbosa. Paralelamente as suas atividades profissionais agitou e dinamizou a vida social de Maringá, sendo um dos fundadores do Clube Hípico e do Maringá Clube. Em maio de 1958, organizou o primeiro Festival do Cinema Nacional em Maringá, trazendo os mais famosos atores e atrizes do cinema brasileiro para participar do evento e conhecer a mais moderna e arborizada cidade do interior do país.
(…) organiza em Maringá o maior comício contra a ditadura militar no mês de abril de 1968. Três dias depois da manifestação na Cidade Canção o regime militar decreta o fim da Frente Ampla em todo o território nacional.
No início da década de 60, retorna às lides políticas se candidatando a deputado federal pelo PTB de Getúlio Vargas, Joao Goulart e Leonel Brizola, se tornando o primeiro deputado federal eleito na história do município de Maringá. Reeleito em 1966, foi um dos fundadores a nível nacional do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), assumindo a presidência do partido a nível estadual e, simultaneamente, foi lançado pelos companheiros candidato a governador do Paraná. Juntamente com os parlamentares da Frente Nacionalista adere à Frente Ampla, movimento político liderado pelos ex-presidentes Juscelino Kubistchek, João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda, e organiza em Maringá o maior comício contra a ditadura militar no mês de abril de 1968. Três dias depois da manifestação na Cidade Canção o regime militar decreta o fim da Frente Ampla em todo o território nacional. Em fevereiro de 1969, o Ato Institucional número cinco, o famoso AI-5, instrumento fascista que durante 10 anos arrasou com o país, cassou o mandato parlamentar de Renato Celidônio. Como um raio, o destino paralisou a carreira do mais brilhante político que Maringá deu ao Paraná.
Proprietário rural de uma dezena de fazendas de café no início da sua carreira política, no momento da cassação do seu mandato só possuía uma fazenda, justamente a menos valorizada. Tinha empobrecido na política. E fato raro nos compêndios da história política do Paraná, recolheu-se à vida privada, pobre e honrado. O deputado federal Renato Celidônio foi cassado no governo do general Ernesto Geisel, e foi o último parlamentar brasileiro a ser destituído do cargo pela Ditadura Militar. Depois de 10 anos de ostracismo, readquire seus direitos políticos e, ao contrário de tantos outros, não retorna à militância política para não prejudicar as novas lideranças que surgiram na resistência democrática. Reiteradamente convocado por correligionários para disputar novamente cargos eletivos, continuou firme na sua posição não querendo concorrer com companheiros, seus liderados, que surgiram na política pela sua mão e comando.
(*) Artigo publicado originalmente na edição impressa do jornal “O Diário do Norte do Paraná”, na coluna História & Política, do dia 16 de setembro de 2017