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APUFPR divulga nota de repúdio contra deputado do Pros

Parlamentar maringaense ‘demonstrou conhecimento sobre produção científica do tamanho de um grão de mostarda’, diz entidade de professores da UFPR

A Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná divulgou hoje em seu site uma nota pública repudiando as falas do deputado estadual Homero Figueiredo Lima e Marchese (Pros), proferidas durante a sessão de terça-feira da Assembleia Legislativa do Paraná. A nota diz que o parlamentar praticou ofensas, teve retórica extremista, além de demonstrar preconceito e tom racista. Confira a íntegra:

A diretoria da APUFPR vem a público declarar seu profundo repúdio às falas proferidas pelo deputado estadual Homero Marchese (Pros), durante sessão da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) na última terça-feira (27).

Mesmo diante de quase 400 mil mortes no país pelo novo Coronavírus e da lentidão do plano nacional de imunização, o deputado debochou das proeminentes pesquisas que a Universidade Federal do Paraná vem conduzindo para desenvolver uma vacina contra a doença.

Ao comentar sobre a necessidade de investimentos em torno de R$ 50 milhões para viabilizar a produção dos imunizantes (incluindo estudos e testes), o parlamentar demonstrou conhecimento sobre produção científica do tamanho de um grão de mostarda ao afirmar que “diante das circunstâncias envolvendo o trabalho da Universidade Federal do Paraná nos últimos anos, não dá na mesma pegar esses 50 milhões de reais, cavar um buraco e enterrar?”.

Em um cenário em que mais da metade das mortes por Covid-19 no Brasil aconteceram quando já havia imunizantes disponíveis para aquisição (e cujas compras foram negadas diversas vezes pelo governo brasileiro), não há como não interpretar o termo “enterrar” como um deboche a todos aqueles que choram porque perderam alguém.

Em vez de gastar seu tempo com análises profundas como um pires a respeito das universidades, o parlamentar deveria empenhar-se para cobrar dos mandatários um maior número de vacinas para salvar a vida da população. E poderia aproveitar o momento para aprender que política de Estado se pensa também no longo prazo.

Nós entendemos o quanto isso é difícil para quem tem um horizonte curto, que salta em pequenos espaços de tempo focando apenas na quantidade de votos que conseguirá na próxima eleição.

Mas a ciência não é casuística, tampouco as crises epidemiológicas devem ser conduzidas como elementos de uma mera equação eleitoral.

Afinal, o comportamento de uma doença precisará ser permanentemente estudado e, com as constantes mutações, é provável que o vírus permaneça circulando, o que só reforça a necessidade de vacinas disponíveis no presente e no futuro.

RETÓRICA EXTREMISTA – Ao escolher uma retórica muito próxima à adotada por extremistas e também pelos fiéis apoiadores do Governo Federal e de sua rede de fake news, o deputado, por descuido com as informações ou por mera verborragia para agradar uma turba permanentemente enfurecida, desfilou ataques à UFPR, dizendo que a instituição está parada e que teria “abandonado” a sociedade.

Como representante do povo e responsável pela observância e formulação das leis, o deputado poderia ter se informado um pouco mais para compreender que o regime de atividades à distância adotado pela instituição não significa que a universidade “está parada”. Muito pelo contrário. Durante toda a pandemia, a UFPR se manteve atuante no desenvolvimento de pesquisas, muitas sobre o próprio Coronavírus. Se tivesse um pouco mais de zelo pela informação conheceria, por exemplo, o desenvolvimento de testes rápidos para diagnóstico da doença (considerado um dos mais apurados do país) e o próprio estudo para elaboração de imunizantes.

Se até agora as atividades presenciais não foram retomadas, é porque vivemos, talvez, no único país do mundo onde governantes e políticos sabotam as medidas efetivas de combate à Covid-19 porque escolheram prolongar a pandemia, e não frear a crise sanitária e epidemiológica. A CPI do Genocídio está aí para investigar isso.

Por isso, não há segurança para o retorno das aulas. A prioridade da nossa comunidade tem sido, acima de tudo, proteger a vida das pessoas, não só de estudantes e professores, mas de servidores técnico-administrativos, profissionais terceirizados e, também, de toda a população.

Ao desdenhar da importância da UFPR, o deputado está agredindo a todos os docentes e pesquisadores de maneira vil. Está deslegitimando o trabalho de uma das maiores e melhores instituições de ensino superior do país.

A UFPR faz parte do grupo de 15 universidades responsáveis por nada menos do que 60% da produção científica nacional (em um país que possui 2.306 instituições de ensino superior privadas e 302 públicas). No ranking espanhol da Web Universities, divulgado no último mês de janeiro, a UFPR foi considerada a 6ª melhor universidade do país e a 11ª de toda a América Latina. No reconhecido ranking World Universities da Times Higher Education, a UFPR aparece na 22ª posição entre milhares de instituições da América Latina.

Isso prova que razões não faltam para exaltar o trabalho da comunidade da UFPR. Mesmo assim, o deputado Homero Marchese optou pela fácil retórica do ódio (muito responsável pelo abismo no qual o Brasil se encontra), e fez coro ao negacionismo que toma conta de setores radicalizados do país, desdenhando da ciência e das pesquisas de combate à Covid-19.

PRECONCEITO E RACISMO – Além de ofender toda a comunidade acadêmica da instituição, ele ainda fez questão de agredir especificamente os professores, pesquisadores e estudantes das Ciências Humanas, ironizando o trabalho desta área que é valorizada nas instituições de ensino superior mais renomadas mundo afora, e que desempenha um papel fundamental para a compreensão dos problemas da sociedade.

Talvez o deputado considere que os votos em si são mais importantes do que a população que vota e, por isso, não compreenda o valor das Ciências Humanas.

Mas seu preconceito foi além. Marchese fez um comentário em tom racista, ao desdenhar de pesquisas que estudam o componente racial da pandemia, ignorando dados que comprovam que pretos e pardos sofrem mais com a doença no Brasil, com mais contaminações e mortes em relação às pessoas brancas. Desdenhar estudos sobre isso é debochar da morte e abraçar o racismo estrutural da nossa sociedade. É vergonhoso.

INTERESSES CONFLITANTES – O mesmo deputado, que reclama quando a UFPR precisa de investimento público para desenvolver uma vacina que irá beneficiar toda a sociedade, não reage com a mesma dureza quando o governo estadual, a quem apoia com bastante fidelidade, concede isenção fiscal de mais de R$ 11 bilhões ao agronegócio e à grandes empresas. É 220 vezes mais do que o investimento que a UFPR precisa para produzir uma vacina própria.

Além disso, em vez de valorizar a produção científica nacional, o deputado prefere adular empresas privadas do setor, para deixar o país refém de interesses particulares e estrangeiros.

Ao mesmo tempo, é um ferrenho defensor do retorno às aulas presenciais (tema que tem tomado bastante espaço em suas redes sociais), o que, apesar do imenso risco que isso representa à população, atende às vontades dos empresários da educação.

Ou seja, há sérios conflitos de interesses nas acusações infundadas do parlamentar.

Ao fazer uma manifestação tão repleta de inverdades e preconceitos, o deputado pode até ter agitado sua militância radical, mas envergou-se a si mesmo e mal percebeu que poderia estar envergonhando a própria Alep, a “casa do povo”.

Temos a plena certeza de que a maioria das deputadas e dos deputados estaduais do Paraná não compartilham da mesma opinião, pois valorizam a nossa centenária UFPR e a imensa contribuição da nossa comunidade à educação e à ciência brasileira.

Mas nós não iremos nos calar diante de ofensas infundadas de quem não defende a ciência e a vida. Por isso, declaramos nosso veemente repúdio a qualquer manifestação que desrespeite o conhecimento produzido por nossa categoria e ironize o trabalho das universidades públicas.

Afinal, diante da irresponsabilidade de governantes e políticos, é a ciência que está salvando vidas.

(Foto: Dálie Felberg/Alep)

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