A Vacina Chinesa e a CPI da Covid

Na reunião do Conselho de Saúde Suplementar, do Ministério da Saúde, nesta semana (27/4), o ministro chefe da Casa Civil, general Luís Eduardo Ramos, disse aos presentes que tomou a vacina “escondido”. (Escondido de quem? A resposta se faz óbvia: de Bolsonaro). E fez questão de acrescentar: “tomei a vacina da AstraZeneca”. Parece ter querido dizer: se descoberto, ao menos terei a atenuante de ter sido vacinado com a vacina de Oxford e não com a vacina chinesa CoronaVac.

Na mesma linha, em outubro do ano passado, após assinar termo de aquisição de 46 milhões de vacinas da CoronaVac/Butantã, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazzuelo, tendo sido desautorizado em público pelo presidente, deixou de honrar o compromisso assumido. Bolsonaro disse que quem mandava era ele e que não compraria a vacina chinesa do Dória, de jeito nenhum. Ao invés de se demitir, o então ministro limitou-se a dizer, singela e inocentemente, que “um manda; outro obedece”. Apesar da humilhação, permaneceu no cargo.

As declarações dos generais Pazzuelo e Ramos denotam uma postura típica de quase vassalagem, não condizente com a dimensão e a responsabilidade do cargo de ministro. Mas tal postura não é privilégio apenas desses dois ministros do atual governo, fato que gera grande apreensão, uma vez que a “questão chinesa” parecia estar razoavelmente equacionada. O silêncio providencial de Bolsonaro e de seu filho Zero Três, que costumavam chamar a CoronaVac de ‘vachina’, e reiteradamente afirmaram ter sido o corona vírus importado da China, e a demissão do notório Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores, apontavam para uma superação dos problemas por eles criados com os chineses. Mas isso não aconteceu.

Durante a reunião do Conselho Suplementar de Saúde, Paulo Guedes, da Economia, com a mais absoluta falta de comedimento, de forma tosca e sem nenhum senso diplomático, nem mesmo o de gratidão, atacou gratuitamente a China, maior parceiro comercial do Brasil e o seu principal provedor de vacinas anti-covid, no momento. Disse o Ministro: “O chinês inventou o vírus e a vacina dele é menos efetiva que a do americano. O americano tem cem anos de investimento em pesquisa. Então os caras falam: Qual é o vírus? É esse? Tá bom. Decodificam. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor que as outras.” (Sic). Além de falsear a realidade, a declaração de Guedes foi absolutamente inoportuna. Mas foi também proposital. Subjacente a (ir)reflexão de Paulo Guedes está o pensamento ideológico de extrema direita que domina o atual governo.

Com a derrota do trumpismo nos Estados Unidos, o governo bolsonaro se posiciona na condição de baluarte anticomunista do Ocidente, em uma especial aversão à China. Mas essa postura ideológica é afrontosa aos interesses nacionais, tanto em relação à pandemia quanto em relação ao comércio com os chineses. E para piorar as coisas, pelo menos no curto prazo, a Índia agoniza diante do alastramento do corona vírus e de suas variantes. Em razão disso, provavelmente terá grandes dificuldades de transferir à Fiocruz os insumos necessários para produção da vacina AstraZeneca. Já o Butantã, por sua vez, tem contrato com o Ministério da Saúde para produzir mais 54 milhões de vacinas da CoronaVac, até o mês de agosto deste ano, além das 46 milhões em fase final de entrega. Mas para isso depende inteiramente do insumo chinês. O ministro da economia sabe bem disso. Mas o pensamento ideológico extremista se antepõe aos interesses nacionais, no curto e no longo prazo. Ao fazer tais afirmações, Paulo Guedes teve duplo propósito: agradar a Bolsonaro e manifestar seu próprio pensamento ideológico, de extrema direita, sob o falso manto de liberal.

Tendo lecionado no Chile, ao tempo de Pinochet, jamais criticou a sanguinária Ditadura militar chilena. Guedes é incensado pelo mercado como uma espécie de fiador dos interesses empresariais no governo. Não deviam ser assim tão crédulos, especialmente os empresários do agronegócio. O exacerbado anticomunismo do atual governo (e de Guedes), especialmente em relação à China, pode trazer sérios prejuízos ao país, no curto, médio e longo prazos. Assim, não é demais afirmar, parafraseando Lênin, que o bolsonarismo é uma doença infantil do anticomunismo. Daí a aversão à China. (Lênin, líder da Revolução Russa de 1917, escreveu, em 1920, quando já estava no poder, um breve ensaio sob o título “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”. Nesses escritos, Lênin criticava duramente os socialistas alemães e franceses que defendiam teses ainda mais à esquerda que as dos bolcheviques). Portanto, a CPI da Covid, instalada no Senado, terá muitas apurações a fazer.

A “questão chinesa” certamente não será negligenciada, pois, como é sabido, 80% dos brasileiros até agora imunizados o foram pela vacina CoronaVac/Butantã. Nesta hora em que o trágico número de 400 mil mortes pelo corona vírus foi ultrapassado, o Senado Federal, como um dos poderes da República, através da CPI, haverá de contribuir – e muito! – para apurar responsabilidades e omissões de autoridades públicas, as quais deveriam ter tomado decisões e adotado medidas concretas e oportunas, senão para impedir a tragédia sanitária da pandemia, ao menos para minimizar os seus efeitos e o número de mortes.

Quanto as relações amistosas entre Brasil e China, o que se deve ressaltar é que são antigas e de grande proveito recíproco. Dentre outras razões, por serem economias complementares. Por isso, essas relações devem ser fortalecidas e ampliadas, apesar das reiteradas provocações e da precária e quase inexistente diplomacia do governo de Bolsonaro em relação à China e ao povo chinês.

(Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)