O poste e o cachorro

Recentemente o Senado Federal instaurou, por decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Roberto Barroso, uma Comissão Parlamentar de Inquérito que ficou conhecida como CPI da Covid, com o intuito de identificar possíveis falhas e omissões do governo federal na condução das ações contra a pandemia. Ocorre que a escolha do presidente e do relator da referida CPI, por seu imprescindível e necessário caráter estritamente isonômico, não atendeu a critérios éticos exigidos, uma vez que sobre esses dois integrantes pesam ações judiciais das mais variadas possíveis. Pelo menos seria de se esperar que os parlamentares inquisidores, ao buscar apenas a verdade nos depoimentos de testemunhas, tivessem conduta ilibada para tanto. Não é o que acontece, infelizmente.
Existe um ditado muito antigo que profetiza com reconhecida sapiência: “Não se dá o que não se tem”. Ocorre que não há como vislumbrar credibilidade na CPI se os agora pretensos defensores da moral e da probidade, senadores Omar Aziz (PSD/AM) e Renan Calheiros (MDB/AL), imbuídos dos mais nobres sentimentos de apreço incondicional à pátria se tornaram inquisidores e algozes sob os holofotes da mídia, mostrando escancaradamente que os objetivos fundamentais da comissão foram deixados de lado, mais uma vez. O que impressiona os mais desavisados é a forma intimidadora utilizada para o questionamento dos depoentes. Por diversas ocasiões testemunhas foram constrangidas, classificadas como mentirosas e outros sinônimos análogos. Ao que consta, o poder dos senadores designados e investidos na função de investigadores se concentra em coletar os depoimentos, analisar documentos, áudios, vídeos e outros procedimentos pertinentes, elaborar o relatório final e encaminhá-lo à justiça. Ousam, portanto, principalmente o presidente e o relator da CPI ao usurpar a função precípua de outro poder, ao conjeturar antecipadamente as testemunhas, mostrando com isso que outros interesses que não os da busca pela verdade norteiam suas questionáveis condutas.
É evidente que o contribuinte brasileiro precisa conhecer a verdade dos fatos, principalmente se houveram falhas ou omissões, ou ainda incompetência na gestão da saúde pública durante a pandemia. Mas de forma serena, organizada, civilizada, sem pressões ou constrangimentos de qualquer tipo. Definitivamente, o circo está montado mirando o próximo pleito. Mas o que impressiona é a inaceitável inversão de valores. Eis que agora temos, para deleite da plateia, o poste urinando no cachorro.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
(Ilustração: Rocha Arts)