Senadores estão aprendendo a cortar o lero-lero dos negacionistas na CPI
Por João Filho, do TIB:
QUANDO O MUNDO estava atônito com a ascensão de presidentes de extrema direita em 2018, escrevi sobre um artigo alemão que dava dicas para jornalistas de como confrontá-los. Um resumo delas: faça perguntas básicas e técnicas, e não dê espaço para o proselitismo ideológico, que é a única arma de um extremista em um debate. Mantenha a conversa no campo técnico e não permita que ela caia para o debate moral, que é a seara em que eles se sentem mais à vontade. Todo extremista é, via de regra, um sujeito com intelectual limitado e invariavelmente se enrola com perguntas simples e técnicas.
Durante um debate no primeiro turno da eleição daquele ano, o jornalista Reinaldo Azevedo fez uma pergunta das mais simples sobre dívida interna para Bolsonaro. O então candidato ficou tenso, gaguejou e parecia estar à beira de sofrer a mesma síndrome vasovagal que derrubou Pazuello na CPI. A resposta do candidato foi um ajuntamento de palavras aleatórias que formavam frases desconexas e sem qualquer relação com a pergunta.
Foi essa a tática utilizada pelos senadores de oposição na última terça-feira na CPI da Covid durante o depoimento da médica negacionista Nise Yamaguchi, que recentemente se tornou a nova queridinha da extrema direita.
Os senadores bolsonaristas estavam otimistas com o depoimento da doutora. Além de estar alinhada ao presidente, ela ostenta um belo currículo na área médica. Os senadores governistas esperavam que isso fosse dar alguma credibilidade às teses negacionistas, mas o que se viu foi o contrário. As pretensas explicações científicas de Yamaguchi não resistiram ao escrutínio dos senadores oposicionistas que estavam afiados. Eles se focaram em questões básicas e técnicas, sem dar margem para o proselitismo negacionista.
O ponto alto do constrangimento de Yamaguchi veio quando Otto Alencar, que também é médico, fez uma pergunta simples: “qual é a diferença entre protozoário e vírus?”. A médica, que defende fervorosamente a aplicação de um remédio para protozoário para combater um vírus, não soube responder. Otto emendou então outra pergunta elementar: “a senhora sabe a que grupo pertence a covid-19?”. Ela ficou nervosa, começou a murmurar e a folhear papéis como se estivesse procurando uma resposta. Quando Yamaguchi tentou apelar para o enrolation, Otto não deixou o lenga-lenga negacionista florescer. Interrompeu a doutora e cobrou uma resposta para suas perguntas técnicas, mas, mais uma vez, ficou no vácuo.
Yamaguchi, que era apresentada pelo bolsonarismo como uma especialista no enfrentamento da pandemia, se mostrou uma profunda ignorante na área de infectologia. Uma pessoa completamente despreparada foi alçada pelo governo Bolsonaro à condição de conselheira de alto nível para assuntos relacionados à pandemia. É esse o tamanho do buraco em que nos encontramos. Leia mais.
(Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)
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