Bola murcha

Aparentemente sem ter coisa mais importante para fazer na vida, como tentar frear os números alarmantes da pandemia e do desemprego, o mandatário maior da nação agora resolveu meter o bedelho onde não foi chamado. A mais recente polêmica protagonizada por Jair Messias Bolsonaro e uma fração de sua prole é a intromissão indevida na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma entidade privada. Como o atual técnico da seleção não simpatiza com a “família real” e seus métodos nada ortodoxos para conseguir atingir seus intentos pouco republicanos, sobra insensatez e falta bom senso por todos os lados, quando o presidente resolve aceitar a realização da Copa América no País.

  É inegável a extemporaneidade da imiscuição de Sua Excelência e adjacências nesse caso específico. Seria uma decisão muito mais prudente e equilibrada recusar o pedido, diante da situação caótica em que se encontram os hospitais públicos e privados. A taxa de ocupação de leitos de UTIs beira o limite e em alguns casos até ultrapassa a capacidade de atendimento. As medidas restritivas e de distanciamento social, implementadas pelos entes federados conseguiram reduzir parcialmente os casos de infecção pelo coronavírus, mas a falta de vacinas disponíveis para a imunização da população está longe de ser a ideal. Diante desse cenário tenebroso, haveria de ter o ilustríssimo dirigente dessa nação (que segue rumo ao desenvolvimento a passos de tartaruga, solapada por escolhas equivocadas ao longo dos anos), uma postura digna do cargo que transitória e democraticamente foi alçado. Em que pese sua personalidade irrequieta e de difícil contenção, seria de bom alvitre que nosso mandatário-mor viesse a direcionar positivamente seu auto propalado e quase inesgotável vigor físico para assuntos estritamente governamentais, deixando a área desportiva e seus problemas apenas com seus dirigentes, nomeados exatamente para isso mesmo.

Esse definitivamente não é o momento para promover ou sediar eventos de espécie alguma. Estamos chegando a meio milhão de vidas perdidas para a pandemia e somente aqueles acometidos por inexplicável miopia ideológica não conseguem enxergar o óbvio diante do próprio nariz. E pelo andar da carruagem, as coisas não parecem tomar rumo diferente, infelizmente. Parafraseando o irreverente jornalista e apresentador esportivo Milton Neves, “…vai ser bola murcha assim lá em Muzambinho…”.

(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR