Não à corrupção foi só um agá

Analisemos duas frases praticamente iguais: ‘Não há corrupção’ e não à corrupção. Vejam que a diferença é um agá, e o acento ortográfico um pouco mudado, digamos.

Bolsonaro e alguns bolsonaristas  proclamam  que não há corrupção no governo federal. Ele foi eleito na onda do ‘não à corrupção’, no embalo da lavo jato, mas na verdade só fez um agá, expressão que segundo os dicionários é uma gíria que significa traquejo de uma pessoa em iludir, enganar a outrem; malícia.

Fui um dos iludidos, mas já não me deixo enganar e tudo começou com o estouro do escândalo da rachadinha, envolvendo o filho, antes mesmo da posse.

Alguns amigos ainda permaneciam enganados e espero que desde ontem tenham mudado de ideia.  Uma amiga até ficou muito brava com um trecho de postagem que fiz, em que disse votaria em Lula, se a opção for ele  e o atual presidente e contaria com a fiscalização dos bolsonaristas. Vou tentar explicar o trecho, para ver se deixo claro que não quis ofendê-los: ‘Vou contar com a fiscalização séria dos ‘incorruptíveis bolsonaristas’, contando com o maior exemplo de seriedade, quando o assunto é corrupção (só que não) o próprio Bolsonaro.

Explico: quando disse incorruptíveis bolsonaristas, me referia a muitos amigos e parentes e pessoas  que conheço e penso que realmente são honestos, éticos. Quando falo do maior exemplo de seriedade (só que não), uso de ironia sobre o presidente e alguns políticos, como foi revelado na CPI.

Desculpe minha amiga. Não se sinta ofendida, você talvez tenha sido enganada como eu fui, pois também votei em Bolsonaro, acreditando. Votei em Lula, acreditando. Já não acredito em nenhum dos dois, mas Lula talvez ainda tenha qualidades que não consigo ver mais no presidente. Vou tentar não cair mais em nenhum agá, nas próximas eleições. Não é possível que não haja algum político sério, capaz de não enganar pessoas sérias, entre bolsonaristas, lulistas, petistas e conheço muitas.

(Ilustrração: Ian Berry)