O frio trazia geada, mas também alegria

O povo se achegava às enormes mesas de tábuas rústicas, que ficavam embaixo das árvores no terreiro. Uma volumosa fogueira alumiava tudo. As lamparinas movidas a querosene ajudavam. Mesas abarrotadas de doces de amendoim, leite, abóbora com coco ralado, mamão, figo, cidra e canjica. Tudo dali mesmo da roça. Para beber, quentão.
Naquele tempo ninguém dizia que quentão era bebida alcoólica. Até as crianças bebiam. Álcool mesmo era a cachaça pura, que só os homens degustavam. Comprada em alambiques, era armazenada em garrafões sem rótulos.
Havia festas na roça em louvar a Santo Antônio, São João e São Pedro. A gente passava perto das casas e via o velho mastro daqueles santos. Após os festejos, eles ficavam fincados lá no terreiro até apodrecer. O frio anunciava um tempo gostoso. Das festas juninas. Das fogueiras. Das homenagens e orações àqueles santos católicos.
Em casa, a gente também fazia fogueira, comprava rojões, traques e bombinhas. Estourá-los era nossa diversão preferida. Mas havia gente que fazia festas organizadas, tradicionais e convidava a comunidade. Ninguém pagava nada. Ia lá louvar e homenagear os santos e honrar o convite dos donos da casa. Não ir era até uma desfeita.
Eu me lembro da família dos irmãos Pedro. A matriarca, que se não me engano se chamava Judite, era uma espécie de estrela dos festejos. Sempre no final de junho. Erguiam uma enorme fogueira, cheia de grossos troncos que queimavam a noite inteira.
O povo ia chegando. As mesas abarrotadas de doces e quentão. Os garrafões de cachaça ficavam embaixo delas. Nunca soube o motivo. Um mistério aquilo. Só os homens bebiam. Eles abaixavam discretamente, enchiam as canecas de alumínio e distribuíam as doses lá fora. Meio camuflado. Parecia algo proibido. Mas não havia arruaça. Um ou outro ruborizava, alterava a voz, sem maiores perrengues.
O melhor mesmo, para a criançada, eram os doces. Comiam à vontade. Os pastosos eram servidos com fatias de vistosos pães caseiros, morenos, de casca crocante. Para acompanhar, quentão. Armazenado em enormes panelas de alumínio. O gengibre era forte. Pinicava a garganta. Mesmo assim, eu bebia uma canecada. Nem sentia o álcool que havia na mistura.
Antes da comilança havia a reza, que chamavam de terço. Mais tarde acontecia o ritual de passagem da fogueira pisando nas brasas. Poucos realizavam tal façanha. Diziam que apenas os que tinham muita fé em Santo Antônio, São João e São Pedro colocavam a sola do pé na brasa viva. A gente ia ver; eles tiravam os sapatos e caminhavam por uns cinco metros em cima do braseiro.
Após o ritual de atravessá-lo, dona Judite, que tinha uns 80 anos, ia olhar a sorte. Uma bacia com água era colocada no meio do terreiro. A lua no céu límpido refletia no fundo do recipiente. O vozerio silenciava. De joelhos, concentrada a encarava por alguns minutos. Dizia ver sinais que indicavam se ela ou alguém da família morreria ou não naquele ano. Dali a pouco, a matriarca ficava em pé e anunciava que não havia prenúncio de morte. Abraçando-a, o povo comemorava.
A festa, realizada sempre de sábado para domingo, terminava com um bailão improvisado no terreiro. O sanfoneiro se ajeitava numa cadeira e tocava até madrugada. Nós, crianças, íamos embora com os pais, mais cedo. O farolete nos guiava pelos caminhos de terra esburacados. A moçada ficava até o raiar do dia. O frio chegava e não trazia só geadas que dizimam o café e as plantações, trazia também alegria. A festa dos irmãos Pedro, inesquecível!