Estar sozinho e não se sentir só

Texto de Sheila Pontes para reflexão com nossos leitores

Li no site do Clóvis Pontes (está fazendo falta na bancada do Pan News, ainda que substituído bem por Kim Rafael), texto de Sheila Pontes, que reproduzo para reflexão com nossos leitores:

“Somos seres sociais, gostamos de compartilhar a vida com outras pessoas e viver em grupos. Estamos sempre à procura de nosso lugar no mundo, e esse lugar, na maioria das vezes inclui outras pessoas.

Viver em sociedade nos permite aprender que não somos os únicos, e que por isso é preciso respeitar também o outro, porque ele é tão importante quanto eu. A partir da colaboração mútua, podemos construir um mundo melhor, com troca de experiências e conhecimento.

Eu me faço a partir do olhar do outro, que me diz como sou e me dá referências. Desde crianças os pais vão sinalizando aos bebês: “olha o nenê, cadê esse narizinho, quem é o bebê mais risonho, que cabelinho bonitinho…” Assim, vamos nos desenvolvendo e observando as diferenças ao nosso redor, que está sempre cheio de gente.

Pensar em ficar sozinho, ainda que por um período curto de tempo, para algumas pessoas pode soar insuportável. Buscamos no outro aplacar a nossa angústia e alcançar a plenitude. Mas, a plenitude seja sozinho ou em grupo não é possível. Podemos ser felizes ou tristes estejamos sozinhos ou acompanhados.

A solidão machuca, dói no fundo da alma, nos faz sentir pertencentes a lugar nenhum, ficamos nus e desamparados como no momento do nosso nascimento, pois nascemos e morremos sozinhos. Estar sozinho pode ser tão amedrontador quanto edificante. O silêncio da solidão nos faz pensar, e ao pensar por si só, estamos mais perto de nós mesmos, de quem somos de verdade.

O outro é nosso espelho, através do olhar de fora vamos construindo quem somos por dentro. Nos identificamos e somos identificados pelas pessoas com quem convivemos. Ao me misturar com o outro me perco, e não sei mais quem eu sou. E quem eu sou? Será que quero saber? Talvez por isso, estar sozinho pareça tão amedrontador.

Ao contrário da solidão, estar sozinho em sua própria companhia e se sentir bem com isso chama-se solitude. A solidão aprisiona e a solitude liberta. Nos liberta para sermos nós mesmos e mais ninguém, para estarmos sozinhos, mas acompanhados ao mesmo tempo.

A psicanalista Maria Lúcia Homem diz que “o real pensamento é profundamente solitário”, ela quer dizer que, é a partir do estar só que conseguimos pensar genuinamente, e não somente replicarmos as ideias de um grupo. Estar sempre seguindo um grupo, pode nos levar a perder nosso senso crítico, e nos levar por convicções que não são nossas.

Estar em sociedade, mas nos permitir também estar sozinhos, pode ser um exercício muito difícil, porém, libertador. Transformar a solidão em solitude pode ser um exercício desagradável e doloroso, pois, precisamos abrir mão do outro, do que pensávamos que ele era para nós. Em algumas situações essa pode ser a melhor escolha, reconhecer que estamos sozinhos, e que sozinhos também podemos ser felizes.

Desfrutar da própria companhia é realizar um diálogo consigo sobre quem você é, quais suas preferências e pra onde você quer ir, e ao descobrir o nosso verdadeiro lugar no mundo poderemos então tentar sermos nós mesmos.”