Relato autobiográfico do advogado Alaor Gregório de Oliveira (1943-2021), parte de monografia elaborada para o curso de especialização em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá, sob orientação do professor Walter Praxedes
Seria ideal que cada um de nós não tivesse a necessidade de se preocupar com a sua etnia, e que vivêssemos numa sociedade igualitária, fraterna e livre do preconceito e da discriminação racial. Essa é a sociedade dos nossos sonhos, todavia não é a sociedade em que vivemos. Por isso, apesar de fazermos parte de uma sociedade cuja população é constituída por quase a metade de indivíduos não-brancos, mesmo assim, adotamos como modelo do belo e do bom unicamente os referenciais eurocêntricos trazidos pelos colonizadores e mais tarde pelos imigrantes de etnia branca. A dispersão e a alienação a que foram submetidos os negros permitiram a assimilação desses valores e são seguramente os principais fatores pela manutenção desta situação até os dias atuais.
Para quem não nasce e cresce em um ambiente etnicamente homogêneo, como é o meu caso, a questão da identidade gera conflitos que somente são superados a medida em que vamos compreendendo a engrenagem do racismo. Nós, negros, somos forçados a desenvolver estratégias para transpor cotidianamente obstáculos de toda natureza, incluindo os de preconceito e discriminação racial. A maior luta, no entanto, é travada no universo íntimo de cada indivíduo, exigindo um intenso e obstinado esforço para romper as amarras com a subserviência e substituir os modelos unicamente eurocêntricos inculcados em nossas mentes e que nos fazem órfãos da nossa ancestralidade africana. Ou pior: tais referenciais nos são mostrados como inferiores e negativos, dificultando a formação de uma auto-estima. Acredito que este é o perfil do negro brasileiro mestiço, principalmente daquele nascido e criado fora de um ambiente de predominância negra.
Na minha trajetória pessoal de vida, como negro, a tomada de consciência étnica se concretizaria somente já na fase adulta, com a participação ativa no Movimento Negro e dos conflitos cotidianos resultantes no enfrentamento das questões raciais. Acredito que esta é uma experiência comum a uma parcela considerável de negros que conheço. Criado em um ambiente cheio de nordestinos paus-de-arara2, paulistas, mineiros e japoneses, em contato com famílias e indivíduos mais ou menos da mesma classe social, as manifestações explícitas de racismo, que certamente deveriam existir, a minha pouca idade não me permitia percebê-las.
Todavia, já naquela época, algumas referências usadas pela molecada para molestar os meninos negros me incomodavam profundamente. Eram alguns xingamentos do tipo: pau-de-fumo3, chiclete de onça4, tiziu4, ou então seu negro preto5! Somente muito tempo depois iria compreender a conotação racista daqueles xingamentos.
Na condição de mestiço, pois minha mãe é branca e meu pai negro mestiço, os sentimentos com relação à aceitação ou não da negritude6 foi durante muito tempo confusa em minha mente. Esse conflito seria superado muitos anos depois, quando do contato e da convivência com o Movimento Negro.
No início dos anos sessenta, fui morar e estudar na Capital, onde permaneci por dez anos. Foi lá que, pela primeira vez tomei contato com um grupo exclusivamente de negros que, de certa forma, se guetizavam, saindo juntos, freqüentando os mesmos locais, namorando somente garotas negras (e essas também namorando somente negros) e freqüentando festas nas quais a presença de negros era quase absoluta, e aqueles da turma que se aventuravam sair dessas normas eram “gelados” pelo restante do grupo. Inicialmente achava tudo muito curioso, mas à medida que o tempo foi passando começava a me incomodar com aquela situação, pois não havia tido aquela experiência de convívio diferenciado entre negros e brancos. A minha convivência tinha sido, até então, com brancos, negros, japoneses, nordestinos7, árabes, indistintamente, sem nenhum problema, pelo menos aparentemente. Essa miscelânea étnica era a configuração social do Norte do Paraná naquela época, onde tinha convivido até então.
Ainda na Capital, fui convidado certo dia por um amigo, cuja família era de Itajaí, SC, para participar de um baile tradicional naquela cidade, denominado “Baile da Primavera”. Ao entrar no clube tive uma espécie de choque cultural ao perceber que o salão estava totalmente repleto de pessoas todas negras rigorosamente trajadas para a ocasião. Famílias inteiras, moças, rapazes, senhores, senhoras, os garçons e até a orquestra quase que exclusivamente composta de negros. Fiquei espantado ao saber que na cidade havia dois grandes clubes sociais: um dos negros e outro dos brancos e que uns não freqüentavam o clube do outro. Procurei saber o porquê daquela situação e fui informado que aquilo fazia parte de um contexto histórico e cultural da cidade e que as pessoas aceitavam como normal. Confesso que foi uma experiência muito estranha, mas serviu para mostrar-me um outro lado da questão racial que até então desconhecia. Procurei, daquela data em diante, me “desobrigar” do relacionamento exclusivo com os membros do grupo porque aquela situação não me deixava à vontade. Aquele tipo de convivência, no entanto, me fez “ver” que a questão da identidade em uma fronteira muito tênue a partir da qual você pode passar de discriminado para discriminador.
Ainda na Capital experimentei algumas situações de racismo. Em uma delas, certa noite, fui perseguido por várias quadras por um velho, com um acentuado sotaque germânico, xingando-me o tempo todo: “negro filho da puta, seu Pelé miserável, negros vagabundos, vocês todos deveriam ser mortos”, entre outras ofensas. A minha primeira reação foi de susto, depois de raiva.Tive vontade de agredir o ancião, mas pensei que se o machucasse acabaria arrumando mais confusão. Desisti e fui embora apressando os passos pela noite fria de Curitiba.
Uma outra experiência de discriminação ocorreu quando fui procurar um emprego anunciado no jornal informando que uma grande loja da cidade estava necessitando de dois rapazes como auxiliares de escritório. Eu já tinha experiência de dois anos na função. Precisava urgentemente trabalhar, pois já estava desempregado há alguns meses. No caminho encontrei com um amigo e disse para onde estava indo. Perguntou-me se podia ir junto porque também estava procurando emprego, apesar de não ter a experiência exigida. Fomos. Fizemos os mesmos testes e fomos muito bem. Pensamos que estávamos ambos empregados, uma vez que existiam duas vagas e fomos os únicos a fazer os testes naquela manhã. Ele conseguiu o emprego e eu não. Detalhe: ele era branco. Meu amigo percebeu a situação, se aborreceu e pediu-me desculpas. Ele não foi culpado. Continuei ainda por um bom tempo procurando emprego.
O detalhe de experiências como essa é que a tristeza por não conseguir o emprego desejado não supera a dor amarga e profunda de ser discriminado. É como se sentir estrangeiro dentro de sua própria terra. É a sensação inexplicável de se sentir sem pátria (o proselitismo e o envolvimento emotivo às vezes nos traem).
Muitas vezes a discriminação não era explícita, quando, por exemplo, entrava em um ambiente repleto de brancos. Ninguém fazia qualquer tipo de agressão física ou verbal, apenas olhavam, o que era suficiente para dizer muitas coisas, entre outras, por exemplo: caia fora daqui! Faziam-me sentir um extraterrestre. Exemplos como estes, e outros tantos, fazem parte da vida pessoal de cada negro neste País.
A convivência e a participação no Movimento Negro Organizado possibilitou-me, entre outras coisas, a compreensão melhor dessa ‘engrenagem’ maluca que é a prática do racismo, aprendendo ‘administrar’ e superar esses conflitos pessoais. Possibilitou-me, também, o conhecimento da trajetória dos negros na sua diáspora pelas Américas e em particular no Brasil e ter uma melhor compreensão das causas determinantes da situação em que nos encontramos hoje na nossa sociedade.
(*) Alaor Gregório de Oliveira, advogado, fundador da Associação União e Consciência Negra de Maringá (1943-2021)
(Foto: Bruno Félix)