Há alguns anos, ia eu de Londrina para Maringá. Entrou no ônibus um sujeito aparentando uns 45 anos. Maltrapilho e quase caindo de bêbado. Discutiu com o cobrador e, num solavanco, apoiando-se nos bancos, foi sentar lá atrás, perto de mim. Tirou uma soneca rápida e ganhou um pouco de consciência.
Puxei papo, e ele sacou um diploma de uma mochila encardida. Sim, um diploma de odontologia também encardido. Esticou-o fortemente com as mãos, apoiando-se no joelho tentou rasgá-lo. O material enrugou, mas não se partiu. Era couro.
Aquele bêbado se formara em odontologia, em 1993, numa universidade paulista. Puxou uma carteira do bolso. Entre papeis amassados procurou algo. Com dificuldade achou. A carteira de identidade. Quis provar a mim que era portador do diploma. Disse que não precisava, acreditava nele.
Na mochila havia uma garrafa plástica pelo meio de cachaça. Ele tirou a tampinha e tomou dois goles. Colocou-a de volta na mochila. Pronunciou algumas palavras. Não consegui entender tudo. Às vezes, divagava. Entendi que vinha de Camboriú (SC), passou por Arapongas e ia para Maringá.
Magrelo, cabelo desalinhado, ele parecia incomodado com o diploma. Olhava-o com raiva. Esbravejava. Mas logo fechava os olhos. Parecia dormir. De repente, um sobressalto. “Maringá, Maringá, cheguei”, perguntava. Eu dizia, não. Ele desviava o olhar. Pegava a garrafa, mais uma golada de cachaça.
Assim foi até enfim chegarmos a Maringá, por volta das 23 horas. Ainda não havia o terminal central. Eu parei no último ponto, que era na Praça Raposo Tavares. Ele desceu e perguntou pelo Albergue. Expliquei. Não sei se conseguiu chegar lá. Pedi-lhe o diploma e o fotografei. Guardei a foto. Não a divulguei porque não conheço o caso. A condição dele não permitia explicações.
(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador
(Foto: Mart Production)