Daninhas que não eram tão danosas

Num tempo em que a medicina estava distante, algumas delas substituíam os remédios da farmácia

“Pra riba, moleque, vai, segura, sem olhar pra trás”, ordenava o pai. A gente subia aquilo para chegar à outra parte da roça. O mato era nosso corrimão. Muita tiririca ou barba-de-bode e guanxuma. Cada dia, a gente subia por um lugar. Não podia fazer trilha para não acabar com elas. Se acabassem não tinha corrimão. Aquele caminho tinha um nome. Chamava-se pirambeira. Era alto, uns 30 metros. Subida íngreme. Quase vertical.

Até hoje sonho que estou a subir a pirambeira. Chão pedregoso, duro. Nunca caí de lá, mas ralei o joelho algumas vezes. Interessante era nossa relação com as chamadas ervas daninhas, aquelas que desafiavam os roceiros. O pai tinha uma enxada especial, afiava-a com uma pedra dura que achou na roça. Ele pressionava-a no corte da enxada até deixá-la fazendo barba, dizia em tom de brincadeira. Meus irmãos preferiam lima, peça própria para afiar ferramentas.

Encabava-a com madeira de lei. Peroba, guatambu, canela, entre outras que resistiam ao trampo da roça. A cunha ficava empinada para dar sustentação ao cabo. Se aquela enxada tivesse com o corte alumiando, a gente percebia que o pai e meus irmãos iriam principiar uma nova empreitada. Muitas vezes, deparavam com tiririca (conhecida também por barba-de-bode), guanxuma, corda-de-viola, carrapicho, que chamavam de bosta-de-baiano, arroz-do-diabo, entre outros.

Aquelas plantinhas irritavam o puxador de enxada. Exigiam mão forte, calejada e ferramenta afiada. No fim de um eito de roça com erva daninha, o sujeito estava exausto, pingando suor. Era preciso tomar fôlego para retomar a batalha. As tais roças praguejadas, como se diziam.

Apesar disso, as ervas daninhas eram íntimas da gente. Beldroegas e caruru não metiam medo. Pés rasteiros e molengos. De fácil corte. Os almeirões-roxo cresciam aos montes. Fácil de cortar e bom para comer. Minha mãe ia levar almoço ou café e voltava com o avental cheio de folhas de almeirão-roxo. Ela misturava à farinha de trigo e fazia deliciosos bolinhos fritos. Entre nós, a prática persiste. Se alguém vai à roça traz para fazer bolinhos. Deliciosos.

Havia a tal Maria-preta que eu adorava degustar. Umas frutinhas escuras. Nasciam a esmo no meio do cafezal. O tomatinho rasteiro também. A gente apanhava e comia com sal. A serralha despontava nas leiras de café. Amarga, resultava em deliciosa salada. Nas beiras de brejo, o agrião. Minha mãe não podia comer, sentia dor ao urinar. Dizem que limpa o canal da bexiga. Galinha doente, a gente dava agrião por dias seguidos, e ela sarava.

O picão, igual ao carrapicho, grudava nas calças e naqueles sapatos de tecido, congas e alpargatas rodas. Vindo do mato, a gente dava um tempo no terreiro para catar picão e carrapicho. Marcas das andanças do dia.

Capins eram vários. Eu me lembro do gordura. Do colonião. Do amargoso. O colonião, a gente atravessava pelo meio, com o estilingue atrás de algum passarinho. Calça curta, coceira nas pernas. A pele ficava avermelhada. O capim gordura produzia um sebo. Daí o nome. O amargoso invadia o café e o plantio de cereais e dava trabalho ao roceiro.

Muitas ervas-daninhas. Não me lembro de todas. Mas era íntimo delas. Apesar de dar trabalho aos puxadores de enxada tinham suas funções. Num tempo em que a medicina estava distante, algumas delas substituíam os remédios da farmácia. O chá de picão, por exemplo, era muito utilizado. Sem falar da alimentação, caso do almeirão-roxo, e do corrimão natural que faziam pra gente percorrer os íngremes caminhos da roça. Daninhas que não eram tão danosas.

(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador

(Fotos: Picão, carrapicho e tiririca – Fonte: Site Escola Educação)