Ouvia de relance. Um pedaço aqui, outro acolá. No celular de algum amigo. Em lojas, dessas que usam som pra atrair clientes. Uma música que fazia eco. Não faz meu gosto. Meus ouvidos foram treinados a ouvir Tonico e Tinoco, Zé Carreiro e Carreirinho, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Inhana. A lista segue. Também Gil, Chico, Tom Zé, entre outros do naipe.
Não considero sertanejo o estilo que cantava. Sertanejo é cabra do sertão nordestino, que corre a cavalo atrás de gado na caatinga. Longe do universo das canções urbanas que propagam sofrimento e carência numa relação amorosa. Mas é algo que está aí e não pode ser ignorado. Não podemos nos fechar, achando que o mundo se resume ao que julgamos certo, errado, melhor ou pior.
Marília Mendonça. Um fenômeno midiático. Da internet. Ela incorporava perfeitamente o mundo virtual e sabia se mover nele. Uma estrela virtual, mas muito real. Projetava-se com estilo no palco e nas lives, como se fosse algo inalcançável. Ao mesmo tempo se misturava ao seu público feito algodão desfiado que se espalha na multidão.
Sair às ruas nas cidades onde se apresentaria fazendo o que ela chamava de panfletagem era um marketing pessoal e instantâneo. Estou na tela do seu celular, mas também aqui do seu lado para uma self. Muitos fãs ficavam hipnotizados, sua estrela ali, à sua frente. Em carne e osso. Alguns nem acreditavam que de fato era Marília Mendonça, convidando-os para o show logo mais à noite. Às vezes, ficavam mudos. Surpreendidos por uma chamada dela ao celular.
Uma artista que compreendeu sua época e soube aproveitá-la. Antes, os fenômenos midiáticos vinham de cima, moldados, editados, produzidos e lançados. As grandes gravadoras os preparavam. Hoje, nascem em qualquer lugar sem aparatos. A comunicação não tem mais ponto de partida. Nem de chegada. As receitas nunca foram tão duvidosas.
Menina de 26 anos, tocando violão, com uma voz potente. Não aprecio seu estilo vocálico. De cantar num tom só. Como se estivesse falando. Nem vejo novidade nas suas composições. Outras ditas sertanejas antes dela cantaram a condição da mulher. Mas Marília tinha feeling apurado. Percebia e compreendia as nuances da sociedade. Para ela, bastava. Feito Maradona, que jogava só com a perna esquerda.
Ela achou o tom e o momento ideais para retomar o tema da sofrência feminina. Tinha um traço rebelde, mas comedida, sabendo se moldar ao meio em que reinava. Polêmica sem ressaltar ideais, evitando a rotulagem. Uma “rainha da sofrência”, sim, mas sem bandeiras.
O mundo virtual, transitando para o real, está povoado desses seres. Nos mais diversos segmentos. Eles nascem sem receita prévia. Vivem e desaparecem em ritmo digital. Numa entrevista que fiz com Cauby Peixoto, no Bar Brahma, em São Paulo, ele disse que demorou a ter um norte na carreira. Quem o ajudou foi um empresário metido a marqueteiro. Di Veras. “Ele surgiu na minha vida como uma luz, me guiando profissionalmente”, contou.
Quem era o mentor de Marília não sei. Talvez, a própria. Daqui a 20 anos, não vamos cantarolar as músicas dela. Outras estrelas estão aí. Muitas virão. Não para sempre, mas para satisfazer a carência momentânea. O tempo dos ídolos e das estrelas eternos não existe mais.
Voltando a Cauby. Eu o esperava, no Bar Brahma, numa sala ao lado do camarim para a entrevista. De repente, surge aquele ser com vestimentas brilhantes, pulseiras e anéis reluzentes. Era assim. Os ídolos se vestiam para se apresentar aos fãs porque eram cantores do rádio e projetavam sua imagem em público. Mesmo na televisão, alguns permaneceram assim.
Hoje, não. Bastam o personagem e a mensagem. Algo que preencherá a lacuna da vez. O historiador Jean Chesneaux lançou, em 1996, o livro “Modernidade-mundo”. Ele analisa o impacto das novas tecnologias na humanidade. No fim da década de 1990, elas começaram. As reflexões dele também: “O espaço parece estar esticado, enriquecido de facilidades gratificantes. Está cheio de ocasiões de distração, oferecendo uma grande variedade de recursos materiais e culturais, as redes de mídia abrem-no largamente sobre o campo infinito do imaginário”.
(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador
(Foto: Redes sociais)