A velha máquina de costura

Um barulho. Corriqueiro. A alguns metros de casa eu o ouvia. Minha irmã Lourdes costurava numa antiga máquina de pedal. Uma impecável Vigorelli. Mais velha entre os irmãos, ela não estudara corte e costura, mas aprendera o ofício. Nossa salvação na roça. Se uma roupa rasgasse, comum na lida diária, dona Lourdes consertava. Naquele tempo, roupa nova só para ir à missa, a casamentos e a alguma quermesse.
Na labuta da roça, remendos eram comuns. Volta e meia rasgava-se uma camisa ao carregar um balaio de milho nas costas. Para dar de comer às galinhas e aos porcos. A calça poderia ser danificada ao constante puxar da enxada. O mato era cheio de armadilhas. Arranha-gatos proliferavam. De espinhos pontiagudos e hirtos perfuravam qualquer tecido.
Entre a molecada rasgar calças no joelho era praxe. Numa correria qualquer um tombo. O joelho raspava o solo. Calça furada. Encrenca em casa. Por que caiu? Indagava a mãe. Se a queda não tivesse um motivo crível, a boca esquentava. Chineladas no lombo. Eu tinha uma estratégia. Não revelava de imediato. Escondia a peça danificada. A mãe só via dias depois. Amenizava a situação, evitando as chineladas.
Dona Lourdes passava dias pedalando a Vigorelli. Em cima tinha uma agulha, com a mão, ela direcionava uma linha que pregava os remendos. Um ali; outro acolá. Viravam até moda. Conheci um rapaz, cujo apelido era “Tonho dos remendos”. Ele não ligava pelo apelido. Até gostava. Sempre trajava uma calça com um remendo em cada joelho. Outro enorme na parte de trás da camisa.
Naquele tempo, estranho era andar com roupas rasgadas. Aí, não! Se alguém o fizesse, seria tachado de desmazelado, desocupado e adjetivos afins. Eu tinha pavor dos zíperes. Meus pais compravam calças com braguilha de zíper. No abre e fecha estragavam. Uma vez fui a Londrina com meu irmão. No ponto de ônibus, na beira da rodovia, fui urinar. Ao puxar o zíper, danifiquei-o. Sorte que meu irmão levara uma sacola. Fiquei toda a viagem com ela na frente da calça.
Minha irmã produzia até peças de roupa. Tintura também. Tecidos esbranquiçados, que sujavam com facilidade, ganhavam cores escuras. Naquele tempo, as tintas eram precárias. O tecido descorava. A cor original ressurgia. A gente não conseguia definir aquele novo tom.
Coisas fundamentais na nossa vida de roceiros? Se fosse enumerar, entre as primeiras estaria a minha irmã e a velha máquina de costura. Quebrou muito galho, consertando roupas danificadas pelos galhos reais. Arranha-gatos eram abundantes nas capoeiras. Andar no meio delas, quase sempre, significava rasgar a calça ou a camisa. Mais afazeres para a dona Lourdes. No seu incansável pedalar na Vigorelli, que ficou com minha outra irmã. Que bom, preservá-la. Pedaço de nossa memória.
Texto e foto: Donizete Oliveira, jornalista e historiador.