A meningite e a vacina, medos que a gente tinha…

O ano era 1974. A meningite rondava o Brasil. Uma epidemia. Na roça, quase toda semana, a gente ficava sabendo que morrera uma criança nas redondezas. Acometida por aquele mal. O assunto ganhava repercussão nas prosas pelos eitos dos cafezais. Diziam que era uma dor de cabeça tão forte e intensa que rachava a cabeça, partindo-a ao meio. Sete palmos. Não tinha jeito, alarmavam.

As notícias vinham pelo rádio, mas eram poucas. A censura exercida pelo governo militar não permitia que as divulgassem. Pela primeira vez, ouvi falar numa tal vacina. Um remédio que fecha o corpo. Não deixa a doença entrar. Assim se referiam à imunização. O rádio avisou. Levar as crianças para vacinar. Meu irmão pegou o cabresto e saiu pelo pasto. Em busca do Dourado, um dos nossos burros. Arriá-lo e colocá-lo na carroça.

Dali a pouco, tudo pronto. Me levar para tomar vacina. Após algumas horas chegamos ao destino. Meu irmão deixou a carroça num pátio grande, na entrada da cidade. Fomos a pé até a praça central. Havia uma fila de mães e crianças. Ficamos ali por quase uma hora.

Numa barraca de lona, um homem vestido com um jaquetão branco e um capacete amarelo na cabeça. Com uma luz frontal, ao menos foi o que identifiquei. Na mão dele havia uma espécie de revólver, cuja ponta do cano pressionava o braço ou o bumbum das crianças menores.

Pavor! As mães na tentativa de acalmá-las, diziam: quietinho, aquele homem é da polícia, te pega hein. Elas esperneavam e choravam ainda mais. Eu também com medo. Ele pressionava aquele revólver no braço dos pequenos. A mãe ou o pai os seguravam. Às vezes, um pela cabeça; outo pelos pés. Gritos e esperneio. E se ele der um tiro? Matutava eu. Imaginando que se tratasse mesmo de um revólver. Mas é melhor enfrentar a ter a cabeça partida pela tal meningite, raciocinava.

Chegou a minha vez. Nem olhei para a cara daquele homem, com aquele vestuário, feito um astronauta. Ele pressionou aquele revólver no meu braço. Doeu. Como se fosse uma ponta de punhal a penetrar no músculo. Meus olhos marejaram, mas abortei o choro. Tinha cisma do meu irmão. Ficou uma marca avermelhada, como se estivesse macetado a pele. Até hoje a carrego no braço esquerdo.

Em casa tive febre, dor na cabeça, no braço e indisposição. Duraram alguns dias. Minha mãe providenciou chás, que tomei com o tradicional melhoral infantil. Após alguns meses tive algo que imagino ser meningite. Talvez por causa da vacina tenha sido mais branda. Muita febre e dor de cabeça. Meu pai me levou à farmácia. Tomei umas injeções. Naquele tempo, chamavam de injeção de óleo. Tinha um líquido viscoso. Quase não passava pela agulha da seringa.

Hoje, lendo descubro que aquela epidemia de meningite matou muitas crianças pelo Brasil. Em São Paulo, houve caos nos hospitais. Muitas mortes. A vacina, salvo engano, foi produzida com ajuda da Fiocruz, que até hoje contribui com a saúde pública. Conheci pessoas que foram acometidas na época e ficaram com sequelas. Outras perderam filhos e netos.

O trauma da meningite me acompanhou. Uma dor de cabeça mais teimosa, logo acreditava que minha cabeça poderia rachar ao meio. Imagine! Uma explosão na cabeça. Que morte horrível! Aquelas prosas da roça aguçavam meu medo. Só me desvencilhei dele no último ano do antigo primário.

Uma professora pediu que a gente revelasse nossos medos. Eu citei esse da meningite, que poderia partir a cabeça. Ela explicou que a doença era perigosa, sim, mas não a ponto de parti-la ao meio, expelindo pedaços de cérebros. Inclusive demonstrou ilustrações sobre seus sintomas estampadas num livro de ciências.


(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador.

(Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo)