Uma mulher que nasceu para trabalhar

Dia internacional da Mulher. Em homenagem a todas as mulheres republico a crônica abaixo, que escrevi sobre minha saudosa mãe. Uma grande mulher.

As mulheres roceiras têm um valor inestimável. Lembro-me da minha mãe, dona Rosa. De madrugada, ela estava de pé. A preparar o café para meu pai e meus irmãos. Após as costumeiras xícaras de café e chá, um pedaço de pão, colocavam a enxada e a moringa de água nas costas e partiam para a lida.
Em casa, ficava minha mãe. Almoço no fogo. Cachorro, gato, porco, galinha, pato lhe dividiam a atenção. O leitão que enroscou numa greta do chiqueiro, o cachorro que se desentendeu com a galinha choca. Uma bombeira naquela confusão, resolvendo as contendas.
Enquanto preparava arroz, feijão, carne, quiabo e salada de pepino punha sentido no guaiú do quintal. Ouvia um cocoricó e sabia qual galinha iria botar ou chocar. Berros eram suficientes para ela perceber se havia algum problema com o gado. Ao lado do fogão, seus ouvidos eram uma espécie de radar que captava e identificava os sinais dos bichos.
Dona Rosa acabava o almoço, enchia as marmitas e tomava o caminho da roça. Às vezes, ela caminhava alguns quilômetros até chegar ao eito. Ajeitava a boia embaixo de alguma árvore. Meu pai e meus irmãos almoçavam.
De volta a casa, ela dava de comer aos porcos, ao gado e começava a preparar o café da tarde. De novo, o mesmo percurso rumo à roça. Esperava eles comerem e retornava aos afazeres do lar. Logo mais era a vez das galinhas e dos patos comerem. Lá estava ela em meio às aves.
O dia ia embora. Os homens voltaram da roça e cumpriam a rotina: tomar banho, jantar e ouvir Edgar de Souza na Rádio Nacional. Se tivesse jogo de futebol, o Fiori Gigliotti na Rádio Bandeirantes ou o Waldir Amaral na Rádio Globo. As partidas começavam cedo, se dormia cedo. No outro dia, começava tudo outra vez.
O trabalho dos homens era pesado, braçal, mas era um só. Minha mãe, não. Cozinhava, levava comida à roça, cuidava da casa e das criações. Um motor que não podia parar nem falhar. Tudo dependia dela, uma mulher que não soube que existia um dia dedicado a ela. O Dia Internacional da Mulher. Comemorado em 8 de março. Nunca foi cumprimentada, elogiada. Nasceu para trabalhar e assim foi até sua morte. Um salve para a dona Rosa.


(*) Donizete Oliveira – Jornalista e historiador