Chegou ao fim o imbróglio da reposição salarial aos militares estaduais paranaenses. No apagar das luzes, o governo do Paraná enviou um projeto de lei que concede reajuste salarial para as polícias militar, civil e científica, que foi aprovado em tempo recorde pela Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e recebeu a sanção do governador Carlos Massa (PSD). Há mais de cinco anos sem qualquer recomposição efetiva das perdas salariais, a categoria promoveu mobilizações, inclusive com manifestações permanentes defronte ao prédio do executivo estadual. Porém, o mandatário atual simplesmente encenou uma simulada negociação, que se arrastou por meses. Diferentemente do embate épico do passado quando o gigante Golias foi abatido por uma pedra atirada pelo mirrado Davi, a história atual seguiu o curso natural em que o maior subjuga o menor, guardadas as devidas proporções de tempo, protagonistas e intenções.
Nesse País de desigualdades de todo tipo, raramente alguma categoria profissional consegue atingir os objetivos demandados, principalmente o estigmatizado servidor público. Ocorre que por absoluto desinteresse do governo atual paranaense no atendimento das legítimas reivindicações dos policiais militares e pela evidente influência do Executivo sobre os parlamentares, o conhecido beija-mão funcionou perfeitamente. A reposição salarial aprovada não atende às expectativas da imensa maioria dos policiais militares, especialmente aos praças que percebem os menores subsídios. Com isso, o governo mantêm os policiais na rédea curta mostrando quem realmente manda no funcionalismo e de quebra, revela seu indisfarçável prestígio junto ao legislativo estadual. Esse posicionamento não é novidade alguma, uma vez que artifícios similares são largamente utilizados pelos que, transitoriamente, ocupam cargos eletivos majoritários. Vale ressaltar que, salvo algumas raras exceções, parlamentares oriundos da corporação policial militar e eleitos com o propalado discurso de defender a classe, simplesmente se omitiram ou votaram a favor da aprovação do referido projeto do executivo, em detrimento dos interesses coletivos da categoria. Essa inconcebível demonstração de submissão canina reforça a certeza de que o rolo compressor palaciano se mantém ativo e operante.
O governo estadual perdeu uma excepcional oportunidade de restaurar, de forma inequívoca, a dignidade daqueles que colocam diariamente sua vida em risco, em prol do cidadão paranaense. Deixou de reconhecer a importância da sensação de segurança, sentimento essencial para a tranquilidade da população, materializada pela presença diuturna dos policiais nos logradouros e vias públicas; do profissional de segurança pública dedicado e obstinado que atende, orienta, auxilia, socorre, encaminha, corrige, previne e defende a comunidade das mais diferentes ameaças. Indiferente ao considerável ativo político proporcionado por uma reestruturação salarial decente, o malfadado projeto de lei desnudou o embuste do discurso oficial. E em outubro, no momento maior da democracia, restarão as lembranças das migalhas do descaso e os fragmentos das sábias palavras daquela passagem bíblica: “Dai a César o que é de César…”.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
(Foto: Dálie Felberg/Alep)