Outubro de 1986. Eu escrevia meu primeiro texto em jornal. No extinto Jornal do Norte, de Apucarana. Que mais tarde se juntou com a Tribuna da Cidade e se transformou na atual Tribuna do Norte. Era um artigo na página do leitor. Falava de “Esporte para Todos”, um projeto coordenado pelo saudoso Airton dos Santos, em Apucarana.
O artigo foi publicado e, dali a uma semana, recebi um convite do irmão do deputado estadual Ferrari Júnior, de Maringá. Para assinar uma coluna social num jornal que ele fundara em Sertanópolis. Se chamava Nortão Ilustrado. Um semanário com circulação em várias cidades do norte do Paraná, incluindo Arapongas, onde tinha uma sucursal.
Nem sabia o que era uma coluna social, mas aceitei. Aí recebi outro convite do saudoso Mársio (com “s” mesmo) para fazer uns frilas para a Revista Jeito, em Apucarana, Arapongas e Jandaia do Sul. Também nessas três cidades passei a fazer frilas para a sucursal do Correio de Notícias. Um grande jornal que existia em Curitiba e circulava em quase todo o Paraná.
Três empregos e pouco dinheiro. Meu começo no jornalismo. Antes disso, meu primeiro contato com um jornal foi no próprio Jornal do Norte, de Apucarana. Eu trabalhava à noite. Na dobradeira. As folhas dos exemplares saíam da impressora. Careciam de um bando de gente em volta de uma enorme mesa para dobrá-las e encaderná-las. Trabalhei lá entre 1985 e 1986.
Comecei em jornal “de dentro para fora”. Trabalhando na dobragem, fuçava em todos os departamentos. Sempre de olho na Redação. O Jornal do Norte tinha um time de notáveis. Me lembro do Valcir Machado, do Luiz Montalvo, do Marcos Gouveia, que chamavam de Marrom, do José Carlos Balan, do Valdomiro de Deus Pereira, do Vanderlei de Souza, e tantos outros e outras que me fogem o nome.
A sucursal do Correio de Notícias funcionava numa sala na antiga Rodoviária, no centro de Apucarana. Hoje, Terminal Urbano. Em Arapongas, na avenida principal, quase em frente à Igreja Católica, a matriz. O Odair, não me recordo o sobrenome, cuidava da parte burocrática. Eu ajudava na Redação.
Logo no começo me assustei com uma pauta. Medo da aids esvaziava salões de beleza. Corri atrás. Em Apucarana e Arapongas. Apurei e escrevi. Muito mal escrito por sinal. Não tinha nem o antigo segundo grau completo. Sanava minhas dúvidas com o professor Zumas, no antigo Colégio Canadá, onde estudei.
Com um apurado acabamento do editor, em Curitiba, no outro dia, o Correio deu meia página. A primeira vez que via meu nome numa matéria. O Odair ficou maravilhado. Ele queria vender anúncios. As matérias locais ajudavam.
Para transmitir à Redação, em Curitiba, a gente usava o telex, nos Correios, em Apucarana ou Arapongas. Às vezes, os motoristas da Viação Garcia quebravam um galho. Levavam no ônibus, à noite. No outro dia cedo, alguém do jornal pegava na Rodoviária de Curitiba. Fotos em papel ou negativos e laudas de textos.
Na Revista Jeito, minha primeira aventura foi uma reportagem. O tema não poderia ser mais atual, o aborto. O saudoso Zé Maria, que trabalhava na TV Tibagi, fazia meio expediente na revista do Mársio. Ele pautou e me mandou correr atrás dos personagens. Duas páginas para preencher, hein, menino, bradou.
Falei com médicos, padres, pastores, mas não falei com a fonte principal: mulheres que por uma razão ou outra haviam praticado aborto. Narrei a apuração ao Zé Maria. Mais que depressa, ele mandou eu voltar às ruas. “Quero mulheres que abortaram, entendeu”, recomendou, meio bravo. Eu fui. Achei uma.
Na foto aí abaixo, eu dedilhando a velha remington. Minhas pernas tremiam. No outro dia, a revista iria para a impressão. As duas páginas estavam lá, esperando o texto e as fotos… O Mársio vendendo anúncio. Minha cabeça não abarcava todas as informações apuradas. Escrevia um parágrafo e não conseguia ligar ao outro.
Mas escrevi. O Zé Maria deu uma “penteada” legal. Assim se dizia do editor e revisor de texto. Ele fazia as duas funções. A revista foi para a banca e estava lá estampada a reportagem do aborto. Assinada por Donizete Oliveira, o mesmo que assina estas linhas que não foram abortadas pelas reviravoltas do tempo.
Virei jornalista. Não fiquei rico, mas sempre ganhei o suficiente para viver, digamos, dignamente. Mesmo nas piores crises, como a que atravessamos. Meu diferencial talvez seja o estudo. Não fiquei só na prática. Fiz três faculdades, especialização, mestrado e estou às portas de um doutorado.
Um 7 de abril, Dia do Jornalista , cheio de esperanças e muita disposição para lutar contra a maré e chegar à praia.
(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador