Ícone do site Angelo Rigon

A lagartixa, uma certa Copacabana e o candidato do fulano…

Acabei de ler “O vendedor de passados”, do extraordinário português Agualusa. Me encantei com Eulálio. O narrador. Uma lagartixa que vive nas paredes da casa de Félix, que sobrevive vendendo passados. E não é que hoje me senti assim. Não vendedor, mas comprador de passados.

Me sentei numa mesa de boteco. Entre os convivas, um falava de Copacabana do Norte. Distrito de São Jorge do Ivaí, no noroeste do Paraná. Repórter de O Diário do Norte do Paraná, de Maringá, fiz algumas matérias lá, mas queria saber mais dos seus primeiros habitantes. Senti que aquele sujeito de cabelos brancos, de barba longa, da mesma cor, poderia me contar.

Mas na mesa tinha um Eulálio. Diferente da lagartixa do romance, este não contava o que se passava. Queria interferir no papo. Não bem no papo. O alvo dele era eu que chegara a pouco e ali sentara. Entrecortando a prosa, me indagou: “de que lado você está?”.

Fiz não ouvir e continuei a escutar a narração daquele senhor exultante sobre o distrito de Copacabana. Mas ele não se deu por vencido. “Amigão, meu candidato é fulano e o seu?”. Fitei os olhos nele por alguns segundos. Esbocei um sorriso. Não respondi.

Meu interlocutor, empolgado com a história, também o ignorava. Ele repetia: ”meu candidato é fulano e o seu?”. Eu tinha ouvido apenas para as peripécias de Copacabana.

A narração daquele comensal que devorava uma porção de bife acebolado com cerveja ganhou a atenção da mesa. Todos queriam saber mais do pacato distrito do noroeste paranaense. Até que o assunto chegou ao fim. Saí da mesa. Disse “até mais” à turma. Não sem antes ouvir: “Meu candidato é fulano e o seu?”.

O Eulálio aqui sou eu. Imaginei. Depois vou contar. A alguns metros da mesa, ele me encarou pela última vez, reiterando: “Meu candidato é fulano e o seu?”.


(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador

Sair da versão mobile