Algumas reflexões

Vivemos um momento de polarização. Sem novidade, afinal em maior ou menor intensidade ela sempre existiu. O preocupante é quando ela vem acompanhada de discursos de ódio, do ‘nós que somos do bem, contra eles que são do mau’, do ‘Deus acima de tudo’. Mas qual Deus? Dos católicos, dos evangélicos, dos judeus, dos espíritas? Cada pessoa não pode ter sua visão pessoal sobre o que é Deus para si? Ou até exercer o direito de não se encaixar em nenhuma denominação. Mas nem de longe esse texto tem a pretensão de entrar nesse mérito. A ideia é outra.

Hoje, quando uma pessoa se atreve a dizer que defende justiça social, fim da pobreza e uma mínima redução das desigualdades sociais, automaticamente recebe o rótulo de comunista, socialista ou de esquerda. Não raro essas expressões são ditas num tom quase colérico e, na imensa maioria das vezes, por pessoas que sequer sabem o que esses demonizados termos significam.

Ocorre que as ideias acima não estão escritas em nenhum livro de esquerda ou algo do gênero. Elas estão registradas na Constituição Federal como objetivos dessa espancada democracia. Nela, a palavra “objetivo” tem o sentido daquilo que deve ser buscado.

Noutras vezes, quando alguém fala sobre a busca da justiça, do socorro aos necessitados e enfermos. “Pronto. Lá vem aquele papo de comunista de novo”. Como as outras ideias, essas igualmente não estão escritas em nenhuma cartilha de partido, ou livro subversivo. Elas estão espalhadas no Velho e no Novo Testamento. Bingo (\o/).

Essa é a questão. Tenta-se passar a ideia de que defender justiça social, o fim da miséria e das desigualdades sociais ou até socorrer os necessitados, seriam “ideais de esquerda”. Mas o que são essas ideias senão de preceitos de comportamento de pessoas que se proclamam cristãs (de outras religiões ou mesmo de pessoas que não possuam qualquer religião)?

Defender esses princípios não determina se uma pessoa é de “esquerda” ou “religiosa”. Defendê-las, e praticá-las, é o que se espera de qualquer pessoa que pretenda ser considerada minimamente humana e íntegra.

(Publicado originalmente aqui)

(Foto: Pavel Danilyuk)