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Entendendo o Godofredo

Outro dia na rua, pensei no Godofredo.

Antes de sair, estava eu em casa, sofrendo com uma manhã gelada, cheia de blusas e cobertores, morrendo de medo de encarar os menos de 10 graus lá de fora e os compromissos de trabalho que me esperavam depois do meio dia. Foi então que criei coragem, arranquei o monte de roupas, vesti uma calça de caminhada e uma blusa de moletom e fui fazer um pouco de exercício pra tentar me esquentar.

Eram umas 9 horas quando saí. O Godofredo ficou me olhando, veio andando atrás de mim até o portão de casa. Eu pensei comigo mesma: “que cachorro louco, se eu não estivesse toda travada, precisando entrar em forma, jamais sairia de casa num frio desses”. Mas o bichinho ficou com a maior cara de pidonho esperando que eu esquecesse o portão aberto pra ele dar uma voltinha. Nem dei bola e saí de casa sem dar tchau pro coitadinho.

Comecei a caminhar e o vento estava gelado. Depois da primeira esquina, saí correndo e finalmente o frio diminuiu. Corri por uma avenida, depois por outra. Na rua, um vazio. Apenas quem realmente precisava sair estava fora de casa. Quando cheguei na praça, parei para me alongar, me esticar e senti novamente o sangue circulando. Passei pela igreja e resolvi entrar. Alguns minutos depois, o frio foi voltando. Levantei para ir embora.

Quando cheguei na calçada, bem na hora me lembrei do Godofredo. Na saída da igrejinha senti na pele o calor de um raio de sol. Junto com o meu corpo gelado, o meu coração se aqueceu e aquele gelo começou a passar. Aí eu entendi por que, mesmo nos dias frios, o Godofredo some de dentro casa e quando a gente vai ver, ele tá lá fora tomando o seu solzinho. O sol aquece o nosso corpo e também o nosso coração. Nos faz sentir a alegria pelo simples fato de estarmos vivos. Num dia tão gelado como esse, sentir o calor do sol é sentir na pele que somos amados o tempo todo por mais que frequentemente nos esqueçamos disso. 

Como o Godofredo sabe das coisas! Naquele momento, em frente à igrejinha, pedi por mais manhãs como essas, em que o calor do sol aquecesse o meu corpo, a minha mente e o meu coração. Pedi também pra ser um pouco mais como o Godofredo, que, em todos os dias, não se preocupa com exatamente nada. Apenas quer amar, ficar junto e se sentir aquecido pelo sol, que está ali todos os dias mesmo que nem sempre nos lembremos de perceber.


(*) Fabiana Burdini Margonato – Professora de Língua Portuguesa e Inglesa, e farmacêutica

Foto: Karolina Grabowska

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