Armado e mais inseguro

Um comentário de um amigo, em postagem que compartilhei, me fez lembrar que, embora nunca tenha dado um tiro, e não soubesse manusear um revólver, além de ter verdadeiro pavor de qualquer tipo de arma de fogo, fui obrigado a andar armado entre os anos 73 e 75, em pleno regime militar e nem por isso me senti mais seguro, muito pelo contrário.
A postagem e comentário são os seguintes: ‘Sou a favor do porte de flautas, violinos, tambores, harpas, pincéis e tintas, vozes e também de livros’. O colega aposentado do Banco do Brasil, Demétrio, que é um bolsonarista raiz, com verdadeira ojeriza da esquerda, comentou: ‘Eu também. Mas para que tudo isso não seja roubado por bandidos armados, que a esquerda protege, prefiro ainda portar armas1.
Veja que a postagem não fala em armas, mas meu amigo, conhecendo a minha posição contra à liberação, quase que indiscriminadamente do porte, pelo governo Bolsonaro, logo associou a posição de quem compartilhou e aproveitou para falar da esquerda e suposta proteção de bandidos.
Volto ao título para explicá-lo: Em 4 de setembro de 1973 tomei posse em Cascavel, como funcionário do Banco do Brasil, um dos melhores empregos da época, e fui lotado na carteira agrícola, tendo como funções a liberação de financiamentos, atendendo agricultores.
Periodicamente alguns funcionários eram designados para fazer um trabalho que fazia parte de nossas atribuições, o que transportar valores, no nosso caso o chamado alívio de caixa (quando havia excesso de dinheiro) da agência de Cascavel para a central em Foz do Iguaçu, que como sabemos distante 143 km.
Os escolhidos não podiam se negar à prestação do serviço e para isso teriam que, num táxi, em dois funcionários, portar cada um, revólver 38, juntamente com um vigilante, também armado. Dá para imaginar a segurança? Eu, por exemplo, não sabia manusear uma arma, mesmo assim tinha que colocá-la na cinta, embora, justiça seja feita, nunca um superior tenha me pediu para reagir, se houvesse um assalto. Eram outros tempos, roubos e assaltos raros, e para se ter uma ideia, a república dos funcionários na qual que morávamos nem chaves tinha nas portas.
Felizmente não houve qualquer problema e nunca nenhum funcionário precisou usar os revólveres, apesar da obrigação que tínhamos de andarmos armados.
A propósito, será que armar a população dará segurança? Especialistas relatam que a existência de uma arma em casa possibilita, estatisticamente, maior ocorrência de mortes por pequenos conflitos, em família. Ou pelo uso, sem autorização, por parte dos filhos. Aliás, a presença de arma em casa pode favorecer acidentes ou suicídios, sobretudo de crianças/adolescentes ou pessoas idosas.
Nós, espíritas, sabemos quanto a influência espiritual perturbadora poderá agravar os casos de conflitos armados, desde que se tenha uma arma à disposição. Porte de arma, nas ruas, pode aumentar a ocorrência de mortes, sobretudo em pequenos desentendimentos de trânsito, ou em brigas de bar.
A argumentação de que o cidadão, estando armado em casa ou saindo portando arma, estará livre de ser assaltado ou morto, é falaciosa. Cria apenas uma falsa impressão de segurança, incapaz de dissuadir os mal intencionados, ou de evitar a ocorrência de crimes.
É, guardadas as devidas proporções, a situação que vivi na década 70, obrigado a andar armado pela direção do Banco do Brasil, para garantir que o dinheiro que transportávamos estava garantido e seguro contra roubos, mas no fundo estava armado e inseguro, ou mais inseguro do que se estivesse desarmado. Acredito que, como diz Bolsonaro, Deus está acima de tudo e tomados os cuidados recomendados, respeitando o livre-arbítrio, nada de mal vai nos acontecer, se não estiver na programação espiritual.
Foto: Senivpetro
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