Curió espera um ficcionista

Ele era capaz de mentir do primeiro ao último minuto de um almoço de duas horas

Por Elio Gaspari, em O Globo:

Morreu, aos 87 anos, Sebastião Rodrigues de Moura, o “Major Curió” da Guerrilha do Araguaia nos anos 1970, da mina de ouro de Serra Pelada dos 1980 e patrono do município de Curionópolis nos anos 1990.

Esse personagem participou do assassinato de guerrilheiros que em 1974 se rendiam às tropas do Exército. Começou no Centro de Informações do Exército, migrou para o Serviço Nacional de Informações. Liderou a maior revolta popular ocorrida na Amazônia comandando os garimpeiros. Entrou na política, passou por sete partidos e elegeu-se deputado federal em 1982 apoiando a ditadura. Em 2000, tornou-se prefeito de Curionópolis pelo PMDB, partido que nasceu opondo-se à ditadura.

A vida de Curió, com as execuções de prisioneiros rendidos, foi contada pelo repórter Leonencio Nossa no livro “Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia”.

Macunaíma foi um herói sem caráter na mão de Mário de Andrade. Curió é um emblemático personagem da segunda metade do século XX à espera de um ficcionista. Ele era capaz de mentir do primeiro ao último minuto de um almoço de duas horas.

Numa de suas últimas aparições públicas, visitou Jair Bolsonaro no Planalto e a Secretaria de Comunicação classificou-o como um dos “heróis” do Brasil.

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