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Eleições de outrora

Maluco e divertido tempo de voto de papel…

“Ali está o destino de todos candidatos”, anunciava Penharbel, numa das cabines de imprensa. Me lembro das palavras do antigo radialista de Apucarana, Antônio Penharbel Filho. O ano era 1986. A primeira eleição que cobri. Eu era correspondente do antigo jornal Correio de Notícias, de Curitiba, e passava informações para algumas emissoras de rádio do Paraná. A gente chamava de boletim informativo. Informava quantos votos fulano teve em tal seção e quem liderava a apuração naquela comarca.

O Penharbel se referia às urnas que ocupavam a quadra esportiva do Ginásio do Clube 28 de Janeiro (ou do Complexo Esportivo Lagoão), em Apucarana. A Justiça Eleitoral as trazia das seções de votação. Ali era feita a apuração dos votos. Durava dois, três dias. No Paraná e pelo Brasil até uma semana. Candidatos que estavam à frente na contagem comemoravam. Se ganhassem, o barulho terminava com um showmício na praça; se perdessem, silenciavam.

A contagem dos votos era uma espécie de divã maluco. Cada mesa fazia sua apuração. Havia um que era uma espécie de chefe. Os partidos nomeavam fiscais que acompanhavam. Mas a última palavra era do juiz eleitoral. Se numa cédula estivesse escrito “ão”, por exemplo, se deduzia que o voto seria de algum candidato chamado João, mas se houvesse um Tião (que era comum), a coisa complicava.

Para votar nos candidatos ao Executivo, o eleitor assinalava um número; nos do Legislativo, escrevia o nome. Numa cobertura que fiz no Vale do Ivaí, a apuração deu vitória a um candidato de uma pequena cidade. As rádios anunciaram. Fogos, carreata e festa. De repente, o adversário pediu recontagem. O resultado virou.

Mas o derrotado não se deu por vencido. Ele, com um advogado, chegou esbaforido e pediu nova recontagem dos votos. O juiz concedeu. Ficou pior. A vantagem em prol do adversário aumentou. Ele não se conformava. Dizia que aqueles votos haviam aparecido do nada. Esbravejou, mas não tinha o que fazer. Cabisbaixo, engoliu a derrota.

Na hora de votar, um drama. Muitos não conseguiam escrever o nome dos candidatos. Outros desabafavam escrevendo palavrões nas cédulas. Havia os que tomados pelo lirismo faziam versinhos, declarando amor a algum postulante. Às vezes, a polícia intervinha, pois havia os que insistiam em ensinar algum parente a escrever o nome do candidato na cédula, violando o segredo do voto.

Nas quadras dos ginásios de esportes, na apuração dos votos, um frenesi. Mesas espalhadas. Um batalhão de gente circulando pelo meio. Repórteres, fiscais de partidos e aqueles que tinham “passe livre” para passear entre a balbúrdia. O pessoal que trabalhava era abnegado. O dia inteiro e um bom pedaço da noite na contagem de votos. A polícia montava guarda no local e, no outro dia, seguia o trabalho.

Era comum o candidato que estivesse vencendo acompanhar o final da apuração. Alguns chegavam com cabos eleitorais, assessores, não raro seus capangas, e ficavam na espreita. Ao computar os últimos votos, ele e seus asseclas saíam em carreata pela cidade. Foguetes espocavam. O povo de ouvido no radinho de pilha. No outro dia, os jornais estampavam a foto da festa dos vencedores.

Vi muita coisa nas apurações eleitorais em que participei na região de Maringá e no Vale do Ivaí. No final da contagem, o povo da imprensa se reunia. Fim da lei seca. Uns alegres; outros tristes. A imprensa (patrões e empregados) também tinha seus candidatos. Maluco e divertido tempo do voto de papel…


(*) Donizete Oliveira – jornalista e historiador

Foto: TRE-RO

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