Ninguém perguntou, mas deu vontade de escrever sobre o que levo em consideração na hora de escolher meus candidatos. Então, se você não quiser saber sobre como estou olhando essas eleições, pode parar por aqui. Sem ressentimentos.
Se decidiu continuar, vamos aos fatos: Confesso que é a primeira vez em que eu realmente tenho me esforçado para escolher o candidato, cujas propostas se assemelham mais ao que eu espero de uma sociedade para mim, mas principalmente para os meus sobrinhos.
É a primeira e última vez que você vai ver os pronomes “meus” nesse texto, pelo menos no sentido de posse. E esse é o principal fato que aponto como sendo primordial para o novo olhar que tenho dado para essas eleições: não é apenas sobre mim ou sobre os meus, aqueles que vivem mais próximos. É sobre todos, sobre o coletivo.
Sociedade é isso. Aliás, você já teve a curiosidade de buscar a definição da palavra “sociedade” no google? Para facilitar, sociedade é um substantivo feminino que significa um agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua. De acordo com a sociologia, sociedade é um grupo humano que habita em certo período de tempo e espaço, seguindo um padrão comum, coletividade.
Olha só que interessante! Grifei algumas palavras e expressões que achei fundamentais para continuar meu raciocínio. Comecemos pela colaboração mútua. Ninguém consegue viver em sociedade se não houver colaboração entre os seres. Quando vi essa expressão comecei a pensar na cadeia de valor que me ajudou a chegar até aqui.
Cadeia de valor é uma expressão que nasceu nas organizações como um método que permite à empresa organizar todos os seus processos, observando os elos e como cada um deles pode gerar valor ao cliente. Usei uma licença poética e comecei a transferir esse conceito para a minha vida.
Além dos meus pais, irmã, marido, amigos, quem são as pessoas que não fazem parte da minha vida, mas que tem colaborado muito para que eu esteja onde estou?
Gente, sério. Que exercício sensacional é esse! Quando saímos da nossa bolha e começamos a olhar ao nosso redor, fichas incríveis começam a cair. Se hoje sou jornalista foi porque tive professores em escolas que, para se manterem limpas e seguras, precisavam do trabalho árduo de profissionais de limpeza e segurança. Comecei a trabalhar no primeiro ano de faculdade. Saía de casa às 5 da manhã e pegava dois ônibus até São Bernardo do Campo. Se não fosse os motoristas e cobradores, minha vida teria sido muito mais dura!
Moro em prédios desde criança e os porteiros sempre foram o meu terceiro olho na hora em que eu cruzava o portão. Quantas e quantas vezes precisei comer fora durante o período de faculdade? O que seria de mim se não fossem os garçons, cozinheiros, caixas de supermercado? E, para finalizar, a laringite me ataca desde pequena. Perdi as contas de quantas vezes minha mãe teve que correr comigo para os hospitais onde os enfermeiros tinham que fazer uma força tarefa para me dar injeção.
Isso foi só um exemplo da reflexão que tenho feito nos últimos meses sobre a cadeia de valor que me cerca. Uma reflexão que já faz parte da minha vida desde que eu comecei a me enxergar como um ser humano que vive aqui e agora, mas que amanhã pode desaparecer. Eu vou passar, mas a sociedade vai continuar sem mim. Se eu não pensar em todas as pessoas, que não conheço, mas que ajudam a manter minha vida funcionando, tudo vai desmoronar. Olha aí o que a sociologia quis dizer em sua definição de sociedade.
Uma sociedade que enxerga o meio ambiente como parte de nossa casa. Sociedade formada por seres que questionam, expressam sua opinião, mas que também ouvem e aceitam a posição do outro. Com educação, saúde, justa com todas as distinções de gênero, credo, etnias, raça. Uma sociedade para todos e não só para mim. É o que espero para o futuro mais próximo possível.
Daí a importância das eleições. Acredito que seja a única maneira que temos para tentar fazer diferente. Eu estou levando muito a sério o momento de apertar a tecla confirma. Para mim, os últimos 4 anos foram a visão do inferno. E quando olho para a minha cadeia de valor, e confesso que, jornalista que sou, ultimamente conversei com muitos destes profissionais que listei acima, percebo que foi pior ainda. Não vou nem falar aqui de todas as atrocidades que presenciamos durante a pandemia, e quem não se sensibilizou com isso, desculpe, é tão desumano quanto aqueles que praticaram. Vou falar do meu bolso:
Fiquei desempregada de 2016 até o final de 2021, e só consegui me manter e, ainda ajudar a pagar as contas da casa dos meus pais, porque guardei dinheiro durante os 19 anos em que trabalhei com carteira assinada (de 1997 a 2016). Isso é fato. Sempre paguei as minhas contas e ajudei a pagar as contas de casa – já que morava com os meus pais até 2019 – com o dinheiro que guardei a vida toda.
E que bom que consegui guardar. Voltei para o mercado no final do ano passado, mas sem carteira assinada. Emito nota fiscal. Essa é a realidade de muita gente hoje em dia, não adianta falar que não.
Durante 19 anos de vida profissional consegui viajar, conhecer o Brasil e o mundo, fiz pós-graduação, MBA, morei em Toronto. E ainda consegui guardar dinheiro. E os profissionais da minha cadeia de valor conquistaram muitas coisas nesse período também. Recentemente, quando fui à formatura de uma prima em Londrina, conversei com um taxista que me levou à rodoviária (sim, fui de ‘busão’ porque a passagem aérea estava um absurdo e estou tentando fazer meu pé de meia novamente). Ele falou todo orgulhoso dos filhos que estudaram na PUC e estão bem empregados. Entraram lá pelo sistema de cotas, o mesmo sistema que estão tentando limar atualmente. Pensei nos privilégios que tenho como branca e fiquei feliz pelo taxista e pelos seus filhos.
Aos 47 anos, estou me enveredando por novos caminhos, me arriscando como quando iniciei minha carreira, mas em um momento cheio de incertezas. Espero, sinceramente, que em outubro novos ventos soprem para os lados de Brasília. Ventos que tragam possibilidades para todos os brasileiros e não só para um pequeno grupo. Não somos seres perfeitos. Somos passíveis de erros, podemos tentar de novo e, desta vez, sem deixar nos fazerem de bobos.
(*) Leslie Beatrice Diorio, pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial e em Administração de Marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado. Graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo.
Foto: Belle Co