Grisalho, nos seus 70 e tantos anos, cabisbaixo, silencioso feito um monge trapista, sentado numa pedra, ao lado de um latão de lixo. Aproximei. Dei-lhe a mão e indaguei se queria sentar num banco na calçada.
– Não, tô bem aqui, devolveu ele.
E completou:
– Um homem saiu à procura do paraíso do deus Indra. Ele andou anos até achar, no cume de uma montanha. Um guardião o convidou para entrar. O homem estava com seu cachorro, um vira-lata que andou com ele toda a jornada. O guardião exigiu que deixasse o cachorro. Não, ele foi meu companheiro de jornada. Prefiro ficar com ele a entrar no paraíso, decidiu, se retirando… mas o cachorro daquele homem era o próprio deus Indra. Menino, certas coisas que parecem boas pra gente, no real, não é…
– Pois, então, o senhor fique aí sentado nessa pedra improvisada, quem sou eu para lhe apontar o paraíso, me despedi.
(*) Donizete Oliveira é jornalista e historiador
Foto: Krystian Bęben