Ao longo da nossa vida, enfrentamos situações que nos impelem a fazer escolhas. Nessas ocasiões, sempre pensamos sobre as causas e, em especial, sobre as consequências da nossa decisão. Na maioria das vezes, embora a escolha possa impactar a nossa vida, nem sempre os seus efeitos serão duradouros ou mudarão irremediavelmente o nosso destino e o de aproximadamente 220 milhões de pessoas.
Sublinho que a sua escolha no próximo dia 30 de outubro definirá o futuro do Brasil e, em grande medida, do mundo. No pleito eleitoral, você deverá decidir pela continuidade ou não de um governo que representa o que há de pior em termos de retrocesso social e civilizacional. Nos piores momentos da pandemia do Covid-19, Bolsonaro, deliberadamente, questionou a eficácia do uso de máscaras e retardou o processo de vacinação. Essa política levou à morte evitável de ao menos umas duzentas ou trezentas mil pessoas. Não bastasse isso, houve tentativas de superfaturamento na compra de vacinas, o que somente não foi concretizado em decorrência de denúncias que demonstraram a falcatrua.
Neste pleito, você poderá dar um basta a tudo isso ou apoiar um governo que trata as mulheres como cidadãs de segunda ou terceira categoria, o que significa opressão às mulheres, mesmo que uma parte delas ainda não perceba esse infortúnio. Com o seu voto, você poderá decidir se o meio ambiente será protegido ou se continuará a ser destruído de forma avassaladora, se você quer continuar a ingerir alimentos com venenos proibidos nos países mais desenvolvidos do mundo ou se vai defender a sua saúde, da sua família e de todo o país.
Você também deverá escolher entre a tolerância e a discriminação, entre uma sociedade mais justa para as mulheres e para as minorias ou se vai manter um silêncio cúmplice. Não se esqueça que o nefasto político que ocupa a presidência da República disse que fraquejou quando teve uma filha. Ressalto que, inúmeras vezes, ele demonstrou preconceito contra os nordestinos, contra os negros, contra os homossexuais, contra os índios e contra todos os grupos que não se enquadram nos protótipos da “familícia”. Não nos esqueçamos do Queiroz, dos milicianos, como o ex-capitão Adriano da Nóbrega, que foi condecorado por indicação da família Bolsonaro. Saliente-se que, na prisão, o miliciano associado ao chamado Escritório do Crime recebeu duas visitas do então deputado Jair Bolsonaro e que morreu em 2020, em uma operação bastante suspeita. Na ocasião, o advogado e a irmã do criminoso afirmaram que Adriano tinha a certeza de que seria morto em uma queima de arquivo.
Lembrem-se daqueles que, no Ministério da Educação, clamaram por barras de ouro ao ponto de ficarem conhecidos, à boca pequena, como o pessoal do “ouremos”. Caso você tenha se esquecido, o tal ministro disparou uma arma de fogo e feriu uma funcionária de uma companhia aérea, no aeroporto de Brasília. Isso tudo é muito pouco perto do que se abaterá sobre o nosso amado país se você não der um basta a essa insanidade travestida de defesa da família, da pátria e dos bons costumes.
Enfatizo que esta não será uma eleição como as anteriores e, certamente, também será diferente das posteriores, caso elas continuem a acontecer com regularidade, um futuro que estará seriamente em risco, caso o atual mandatário seja reeleito. Há momentos em que nos deparamos com uma encruzilhada, com uma fronteira, com as linhas de um rubicão que, se ultrapassadas, não mais haverá um ponto de retorno. Sinceramente, é sobre isso que eu quero falar com você.
Há coisas que aconteceram há muitos anos e que gostaríamos de deixá-las mortas e sepultadas lá no passado. No entanto, há um tipo de passado que não passa e insiste em nos assombrar e trazer à tona o sangue e as tragédias de cada uma e de todas as vidas ceifadas, interrompidas ou arruinadas. Quem acreditaria, há uma década, que seria necessário relembrar novamente a destruição em massa levada a cabo por Hitler, por Mussolini e por seus seguidores, e que voltaríamos a ter receios de que tamanha insanidade pudesse se repetir? Quem diria que precisaríamos lembrar que o regime de Hitler pôs fim à vida de cerca de 6 milhões de judeus, a grande maioria em câmaras de gás ou em fornos crematórios? Quem diria que, após anos de contínua democratização, esta mesma terra mãe gentil teria como presidente um defensor da tortura, da ditadura e da supressão de quem pensa diferente? Quem diria que ele e os seus próceres, em diferentes ocasiões, flertariam com os símbolos dessa barbárie hitleriana? Vou parar por aqui, pois o meu estômago fica embrulhado só de pensar até onde vai a estupidez humana.
Nestas eleições, você deverá escolher entre um país dos livros ou das armas; entre um país em que a democracia poderá ser exercida em sua plenitude, com todos os seus inúmeros problemas e imperfeições, ou um país que sacrificará a vida da sua população nos altares das guerras sem sentido (como todas assim o são, umas mais outras menos). Em 30 de outubro, você escolherá pelo direito a ter uma opinião ou permitirá que os falsos Messias, os traidores da pátria travestidos de heróis, os joaquins silvérios dos reis contemporâneos, dissimulados de Tiradentes, determinem o que é certo e o que é errado e ergam templos ao inominável mito, ao tinhoso lobo que se oculta sob a pele de cordeiro e conduzam o nosso país ao mais sombrio dos precipícios.
Por fim, sublinho que um novo governo desse profeta do apocalipse, legitimado pelas urnas, será uma tragédia maior do que a já anunciada. Esse ser tripudiou sobre os cadáveres dos mortos da Covid, quando grande parte dessas perdas poderia ser evitada. Para isso, bastaria que simplesmente o seu desgoverno agisse como governo e tomasse as medidas urgentes e necessárias e não as postergasse como ele fez. Se vitorioso, ele será revigorado pelo sufrágio e terá as mãos livres para exercer toda a sua perversidade. Sem rodeios, estamos a falar de psicopatia e de perversão. Para concluir, lembro que Hitler chegou ao poder pelo voto do povo, embora não tivesse obtido maioria, e ressalto que ele primeiro manipulou e depois eliminou quem pensou que ele pudesse ser um objeto útil a ser manejado para se alcançar objetivos inconfessáveis. Assim, no dia 30 de outubro, mesmo com todas as suas ressalvas e questionamentos, você poderá votar pela reconstrução da democracia ao digitar na urna eletrônica o número 13 (Lula e Alckmin), ou as suas mãos e a sua consciência ficarão irremediavelmente manchadas de sangue ao votar no candidato fascista e antipatriota.
Para derrotar o candidato fascista, é necessário consolidar a construção de uma frente ampla que congregue cidadãs e cidadãos dos mais variados matizes políticos, religiosos, étnicos e culturais, tendo como norte a defesa irrestrita da democracia. Desse modo, será possível afastar de vez o fantasma da tentação autoritária e, assim, garantir inclusive o seu direito a fazer oposição ao novo governo sob uma ordem democrática e plural.
(*) Sidnei J. Munhoz é professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Estadual de Maringá
Foto: Life Matters