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A quem interessa apequenar o Legislativo?

Teremos nova oportunidade de superar essa deformidade sobre o dever de ser de ser de nossa democracia

A Câmara de Maringá deve votar, ainda nesta semana, o projeto que pretende adequar o número de vereadores ao tamanho da população do município. A proposta pretende ajustar a quantidade de cadeiras conforme orientação da Emenda Constitucional 58/2009, que é de 23 vereadores para municípios entre 300 e 450 mil habitantes. Hoje com 15 vereadores, a representatividade parlamentar da Cidade Canção é a mesma que a de municípios com 50 mil habitantes.

Não é a primeira vez que essa Casa de Leis tenta implementar o que recomenda a Constituição. Quando da tentativa em 2011, um movimento muito curioso e digno de estudo cumpriu o papel de intimidar os parlamentares e manter diminuída a representatividade parlamentar de Maringá à de municípios muito menores como Lapa, Cornélio Procópio e Palmas, todos no Paraná.   

À época, foi locado um caminhão de som que corria as ruas da cidade tocando o hino nacional, convocando a população a comparecer à sessão contra o aumento do número de vereadores. Os trabalhadores do comércio receberam e foram orientados, muitos deles, coagidos, a usarem camisas pretas com dizeres contra o aumento do número de vereadores, foram pagas inserções de rádio, comprados espaços em sites e jornais impressos. 

A estratégia foi conhecida como Operação 7 de Setembro (Op7). Acompanhamos o processo, e num primeiro olhar sobre a coisa bruta, parecia como se o Capital local defendesse sua “independência” sobre um possível fortalecimento da democracia. Não precisavam e nem queriam mais democracia! 

Nas entrevistas, eram destacadas falas de desqualificação da política e de tudo o que dela derivasse, desde a deslegitimação da existência dos Partidos até uma reprodução catatônica do mantra do “enxugamento da máquina pública”. 

A coqueluche do momento era a instalação de “impostômetros” na frente dos prédios de Federações de Indústrias e Associações Comerciais nas principais cidades do País, mas nenhum “sonegômetro”, em lugar nenhum. 

O caso é que, no dia 13 de setembro de 2011, 4 dias após o desfile de 7 de setembro, com caminhão de som locado, pago e tocando alto o hino nacional exaustivamente na entrada da Câmara pela Avenida Cerro Azul, pessoas vestidas das camisetas estilizadas pretas enchendo o plenário da Câmara, rádios e jornais cobrindo cada passe, começava a sessão. Neste ponto, talvez estivéssemos nos deparando com as primeiras pérolas a serem incluídas no anedotário da crise de histeria elitista da antipolítica e que resultou em tristes episódios vistos nos últimos anos no cenário nacional.

Sessão da Câmara de Maringá em 13 de setembro de 2011

Na pauta, para além do projeto que propunha ajustar o número de vereadores para 21 cadeiras, havia, como um verdadeiro teste de intenções, para os ditos “preocupados com os gastos públicos” sabiamente articulado pelo experiente e respeitado vereador Dr. Manoel Sobrinho, o Projeto de Emenda à Lei Orgânica 98/2011, que reduzia de 5 para 3,5% os repasses públicos para a Câmara de Vereadores.

Faca e queijo na mão da Acim: se a questão era conter gastos públicos, as duas propostas resultariam no ajuste da representação ao tamanho da população, com 21 cadeiras (democracia ampliada), e a redução de repasses de 5 para 3,5% de orçamento (economia).  

A realidade foi que os manifestantes de camisa preta chegaram a virar de costas na votação do primeiro projeto que aumentava o número de vereadores, e na hora de votar a emenda que reduzia o repasse para a câmara já não se faziam mais presentes no plenário. (A prática desrespeitosa de virar de costas para o parlatório foi lamentavelmente retomada recentemente pelos “patriotas da Mandacaru” durante as sessões). Desvelou-se a real intenção, que era manter o legislativo maringaense apequenado, aquém do que Maringá representa para o Paraná e o Brasil. Não era pela economia do dinheiro público, assim como não é hoje!

Acreditamos que, naquele momento, os vereadores sequer imaginariam que tal pressão iria ocorrer, uma vez que tentavam, tão-somente cumprir os preceitos constitucionais. O resultado, talvez por falta de amadurecimento do tema, foi a rejeição do projeto, logo, a pressão venceu.

Mais democracia, mais fiscalização, mais controle e menos demagogia de quem tem medo da representatividade, necessária ao amplo debate de ideias, tão abominado por quem está tão acostumado a sempre dar as cartas.

Neste momento, depois de mais de 12 anos da PEC aprovada, nossos edis, de forma unanime, o que mostra o amadurecimento político do tema, reapresentam o projeto. 

Terça teremos nova oportunidade de superar essa deformidade sobre o dever ser de nossa democracia em Maringá. Mais democracia, mais fiscalização, mais controle e menos demagogia de quem tem medo da representatividade, necessária ao amplo debate de ideias, tão abominado por quem está tão acostumado a sempre dar as cartas. Sem medo de quem vira as costas ao parlamento, e que, em todos os momentos age de forma contrária a nossa tão frágil e recente democracia.  

Fazemos menção, aqui, aos 14 vereadores que assinam o projeto de aumento de cadeiras e à defesa corajosa e serena do Presidente Mário Hossokawa na imprensa e nas redes sociais. A aprovação desta proposta é um legado desta legislatura que adequa nossa Câmara ao tamanho de Maringá.


Luiz Modesto – sociológo, especialista em políticas públicas e defensor do aumento do número de Vereadores

Kelly Defani – advogada, especialista em administração pública e representante do Movimento pelo Fortalecimento da Democracia em Maringá

Foto: Marquinhos Oliveira/CMM

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