Versos que brotam da simplicidade

Baiana moradora de Ivaiporã, que não concluiu o antigo primário, transforma muita coisa em poesias rimando assuntos e temas com os quais depara no cotidiano
Pelas frestas da grade vejo Idalina, me esperando, no quintal de casa, no centro de Ivaiporã. Uma mulher franzina, de voz possante, abre o portão e me convida para entrar. Idalina Mamede de Brito, 77, nasceu numa região chamada Lajedo Alto, atual distrito de Iaçu (BA), mas se criou em Feira de Santana. Seguindo o destino de muitos conterrâneos, migrou para o Paraná. Antes dela, veio seu pai, Manoel Roque, um baiano destemido que rumou para o Sul em busca de trabalho. Juntou dinheiro e buscou a família. A primeira morada foi em Borrazópolis, no Vale do Ivaí.
Idalina lembra da vida sofrida, que começou na longa viagem até o Paraná. Vieram de pau-de-arara, um caminhão apinhado de gente, cachorro, gato e trens da lida doméstica. Manoel era simpático, desembaraçado, comunicação forjada no pequeno comércio que mantinha na Bahia. No Paraná, no início, foi caixeiro viajante, os chamados mascates que vendiam roupas, água de cheiro e outras coisas de porta em porta. Moraram, entre outras cidades, em Maringá, Toledo, Mandaguari, Jandaia do Sul.
Com tantas mudanças, Idalina interrompeu os estudos, pois chegavam a um lugar e logo se mudavam, prejudicando o ano letivo. Mas ela não precisa se apoderar das letras para expressar o que sente. É uma poeta por natureza, se um assunto a comove, logo o transforma em versos. Viúva de Jesulino Cardoso de Brito, de uma família de 13 irmãos, ela diz que o ser humano precisa aprender com aquilo que o entristece. “Se vejo alguém jogar lixo na rua me revolto, mas transformo minha revolta em versos”, diz.
Por exemplo, em “Crime ambiental”, que diz: “Não é preciso ser poeta/ Para ver a beleza da lua/Pessoas educadas/Não jogam lixo na rua”. Mas não é só a natureza que a inspira (ou a revolta). O dia em que a visitei era 15 de outubro, Dia do Professor, e ela logo encontrou uma folha no meio de outras numa pasta. Sem rodeio começou a ler uma poesia que fizera em homenagem aos professores; “Hoje quero homenagear minha primeira professora que me ensinou o beabá”, seguem os versos em louvor aos mestres.
Mãe de nove filhos, avó de 14 netos e cinco bisnetos, Idalina só para de declamar as poesias com a chegada da filha, Ilsabete Cardoso de Brito, 52, a Bete Brito, que nos serve um café. Ela planeja organizar as poesias da mãe e lançar um livro. “´Um reconhecimento à simplicidade e ao amor que ela tem pela vida, transformando assuntos cotidianos em versos”, diz. Mas enquanto não as vê publicadas, Idalina busca inspiração para mais versos, que podem surgir a qualquer momento. “Tudo vem de repente e peço para alguém pôr no papel, não resisto ao ímpeto da palavra querendo saltar da minha boca”, afirma. Versos que brotam da simplicidade.
Legendas:
As poesias que Idalina faz e alguém transcreve para o papel vão se transformar em livro, segundo a filha, Bete Brito
Os assuntos e temas das poesias são muitos, por exemplo, esta, dedicada à preservação do meio ambiente
Texto e fotos: Donizete Oliveira