Memórias do campo da morte

Os irmãos russos, de Doutor Camargo, que sofriam com sequelas psicológicas da infância, oriundas da permanência em um campo de concentração de trabalhos forçados, na Segunda Guerra Mundial, morreram sem indenização
As altas cercas de arame farpado e os gritos dos prisioneiros de guerra, a maioria russos. Rotina que fazia parte do cotidiano das crianças nos enormes galpões construídos para abrigarem refugiados da Segunda Guerra Mundial. Seguidos dos gritos, não raro, ouviam-se tiros. Os soldados nazistas assassinavam prisioneiros e empilhavam os corpos que, posteriormente, eram enterrados em valas. Os pais, das primeiras horas da madrugada ao final do dia, trabalhavam na extração de turfa. Uma planta aquática abundante em canais de água parada, dela se extraía carvão fóssil para alimentar caldeiras de fábricas alemãs.
Por 13 meses, entre 1944 e 1945, os irmãos Mikolay e Valentim Hluchow conviveram com a tensa rotina num campo de concentração nazista para trabalho forçado, entre Alemanha e Holanda. Agricultores em Doutor Camargo, município de 5,8 mil habitantes (a 30 quilômetros de Maringá), eles haviam ingressado com uma ação judicial pleiteando uma indenização por danos psicológicos que sofreram naquele período. Valentim, que na época, tinha cinco anos, dizia que tomava remédio para dormir, evitava ver polícia e se assustava com barulho de aviões, pois eram comuns sobrevoarem a área onde ficavam os prisioneiros.
Em troca do trabalho, as famílias recebiam uma porção de comida à base de raízes comestíveis que, para os irmãos, não passava de lavagem. Nos alojamentos coletivos, muitas crianças morriam de diarreia e tuberculose, que também matava adultos. “Muita gente ia se definhando na cama até o fim”, recordou-se Valentim, em entrevista a este repórter, para o jornal Folha de Londrina, em 2008. “Sobreviver naquelas condições era muita sorte, e foi o que tivemos”, complementou Mikolay.
“Tinha de falar baixo, com jeito, mas mesmo assim podia levar um tiro ou uma coronhada de fuzil na cabeça”, Mikolay.
Valentim tinha dificuldade em falar do assunto e só o fazia ao lado de Mikolay, no imenso quintal de uma chácara emendada com a área urbana de Doutor Camargo. Para os irmãos, embora seus pais tenham sobrevivido, a indenização era mais que uma questão financeira. “O que sofremos não tem dinheiro que pague, mas queremos o reconhecimento do Estado alemão”, afirmou Mikolay, lembrando que seu pai, no Brasil, também evitava a polícia, temendo sofrer algum mal. No campo de trabalho forçado, o contato com um soldado alemão podia significar a morte. “Tinha de falar baixo, com jeito, mas mesmo assim podia levar um tiro ou uma coronhada de fuzil na cabeça”, disse ele.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os pais deles, que eram russos, mas viveram na Ucrânia, deixaram o campo de trabalho forçado e vieram para o Brasil. Do Rio de Janeiro seguiram para o Paraná. Eles moraram em Apucarana, Campo Mourão e, após alguns anos, se mudaram para Doutor Camargo. Com a morte dos pais na década de 1970, passaram a tomar conta do sítio de cinco alqueires que pertencia à família. “Apesar do sofrimento que passamos, aqui encontramos um pouco de paz”, dizia Mikolay.
A primeira tentativa em busca de indenização pelos maus-tratos que sofreram fora uma carta enviada à Organização Internacional para as Migrações (OIM), entidade que cuida de pedidos semelhantes à Justiça alemã. Em resposta, a OIM alegou que os danos sofridos por eles haviam prescrevido e não eram suficientes para formular pedido de indenização. Eles procuraram orientação de um advogado de Maringá, mas não obtiveram sucesso para seguir adiante com uma ação indenizatória.
Doentes, os irmãos não resistiram à espera da Justiça. Valentim morreu aos 77 anos, em 2018, e Mikolay com 82, em 2019. Mas se não ganharam na Justiça, obtiveram a admiração e o reconhecimento daqueles que os conheceram e dos filhos, que pretendem preservar a memória dos pais. A corretora de imóveis Meire Aparecida Hluchow, 53, filha de Valentim, afirma que a trajetória do pai e do tio Mikolay é digna e corajosa. “O que eles enfrentaram não é brincadeira, superaram a barbárie da guerra, os traumas do sofrimento da infância e migraram para um país distante, formando uma família que aí está até hoje”, diz.
Ricardo Hluchow, 45, filho de Mikolay, acrescenta que ambos foram heróis sem armas, pois venceram as atrocidades nazistas e vieram refazer a vida com os pais num país desconhecido sem entender o idioma local. “Apesar das sequelas psicológicas, não desistiram de viver”, diz. Ele e Meire garantem que vão preservar a memória dos pais para que outras pessoas mirem no exemplo de que a vida é uma sucessão de lutas e jamais se deve desistir delas. “Eles persistiram e venceram”, afirma Ricardo.
(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador. Fotos e texto. Confira outras reportagens no site O Repórter Andarilho.