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Para que nunca mais se repita

A exposição em massa dos acusados de participar dos atos golpistas merece reflexão

Qualquer pessoa com um senso mínimo de civilidade sente um misto de indignação e tristeza ao ver os atos criminosos cometidos por golpistas no 8 de janeiro em Brasília. A cena do policial militar que continuou sendo agredido, mesmo desacordado após ter sido derrubado do cavalo, é uma dentre tantas outras cenas que dão uma cara para o ódio. E o ódio estava no rosto daqueles que até então se denominavam “cidadãos de bem”.

Os que perguntam como chegamos a esse ponto, devem recordar que a cultura de disseminação de ódio começou a ser difundida antes mesmo do golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff. Durante a votação do impeachment quem sabe o então deputado Bolsonaro tivesse sido imediatamente repreendido ao elogiar um torturador, talvez a história teria seguido um curso diferente. Tolerou-se o intolerável, nasceu a serpente.

Mais à frente, o governo Bolsonaro foi marcado por quatro anos de disseminação de discursos de ódio, ataques às instituições democráticas, divulgação de fakenews, negação da ciência, demora na compra de vacinas, etc., etc., etc. Por anos a engenharia do ódio foi nutrida diariamente. Hoje muitos daqueles que tinham como lema “Deus, pátria e família” romperam laços familiares. Pais deixaram de conversar com filhos por intolerância política. O ódio nutrido por anos não passará num piscar de olhos, mas sucumbirá gradativamente, pois as pessoas não desejam um retrocesso à barbárie.

Mas um fenômeno merece reflexão: a exposição em massa nas redes sociais de pessoas acusadas de participar dos atos criminosos e golpistas. Compartilho da indignação, mas pessoalmente me abstenho de expô-las. Explico. Embora tenham acusadas de cometer atos criminosos gravíssimos e demonstrarem total desprezo às leis, essas pessoas devem ser tratadas/julgadas com o rigor que as leis determinam. Por ironia do destino muitos que ontem criticavam os direitos humanos, hoje clamam por eles. Os direitos humanos dessas pessoas também devem ser garantidos, mesmo tendo eles tentado abolir o estado de direito.

Isto porque, não é vingança o que se espera contra os acusados de participar de atos criminosos e golpistas contra o estado democrático e de direito. O que a sociedade espera é a aplicação rigorosa da lei, inclusive aos financiadores, para também que ressarçam os prejuízos que causaram e que por todos nós será pago.

Para que nunca mais se repita.

Publicado originalmente aqui. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

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