Barros abre empresa de fertilizantes após liderar governo Bolsonaro na crise no setor
De Paulo Motoryn, em colaboração com o Instituto Serrapilheria, no The Intercept Brasil:
O ex-líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros, do PP, fundou uma empresa de fertilizantes chamada Juazeiro Fertilizantes e Agronegócio em novembro de 2022. Com um capital social de R$ 100 mil e sede no interior baiano, na zona rural de Juazeiro, a firma foi aberta menos de um ano depois de Barros liderar o governo de extrema direita durante a chamada “crise dos fertilizantes”. Em março do ano passado, ainda do outro lado do balcão, Barros despontou como protagonista diante da escassez desse produto essencial para o agronegócio.
Hoje empresário do ramo, Barros tentou abrir caminho para seu futuro negócio ao liderar a bancada bolsonarista na aprovação do requerimento de urgência ao Projeto de Lei 191/2020, que visava permitir a mineração em terras indígenas. Na época, o então deputado afirmou que a medida seria fundamental justamente para “garantir fertilizantes para o nosso agronegócio” por meio da exploração das reservas de potássio. Em discurso para defender a aprovação da urgência, bradou: “Mineração em terras indígenas estava na plataforma de campanha do presidente Bolsonaro”.
Em 9 de março do ano passado, na tribuna do plenário da Câmara, quando o relógio apontava 20h30, ele explicou a relação entre a crise dos fertilizantes e a liberação da exploração mineral em áreas indígenas.
“”Ah, mas pouco das reservas [minerais] estão em terras indígenas’. Quando há uma reserva fora, sabem de quanto é a zona de amortecimento de uma reserva indígena? Dez quilômetros! Se a reserva acaba aqui, nestes 10 quilômetros não se pode explorar. Então, as terras indígenas podem estar sobre uma quantidade menor de reservas – estou falando só de fertilizantes, porque existem inúmeros outros minerais nas reservas indígenas –, mas as zonas de amortecimento abrangem muito mais áreas, que ficam impedidas de serem exploradas”, argumentou Barros. Ele desconsiderou que estudos científicos demonstram que o potássio, principal insumo na fabricação de fertilizantes, não está localizado nas terras indígenas.
A empresa de Ricardo Barros foi registrada na Receita Federal em novembro de 2022, dias depois da vitória do presidente Lula contra Bolsonaro no segundo turno. Na época, o projeto de lei 191/2020 ainda tramitava na Câmara. Questionado pelo Intercept sobre o possível conflito de interesse, ele afirmou, em nota: “Não há nenhuma relação da minha atuação como líder do governo na Câmara e a fundação da empresa de fertilizantes em Juazeiro”.
A engenharia para formação da sociedade chama atenção, já que, em junho daquele ano, o mesmo grupo de empresários que está na sociedade com Barros abriu uma empresa com um nome quase igual: Juazeiro Agronegócio e Fertilizantes. Em 20 de outubro, a empresa foi extinta, mas reaberta em 2 de novembro com o nome atual, Juazeiro Fertilizantes e Agronegócio. Agora, com o ilustre deputado Ricardo Barros, ex-líder do governo na Câmara, como um dos sócio-administradores. Sobre o assunto, Barros explicou ao Intercept: “A respeito das alterações na configuração societária da empresa, trata-se de engenharia tributária”. (…) O administrador registrado na Receita Federal é José Adriano da Silva Dias [ex-presidente da Alcopar e do Clube Olímpico de Maringá], que divide a sociedade de outras empresas com Ricardo Barros. Leia ais.
Ilustração: Intercept Brasil/Agência Brasil
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