O Ministério Público do Paraná abriu um procedimento para investigar o caso de uma apresentação escolar do Colégio Estadual Cívico Militar Marquês de Caravelas, em Arapongas, suspeito de apologia ao nazismo na sexta-feira, informa Paulo Assad em O Globo.
“As Promotorias Criminais da Comarca vão acompanhar essa apuração, de forma integrada com a Polícia Civil”, diz a nota a nota. A Secretaria de Educação também afirmou que iria apurar o ocorrido, tornado público após publicação da deputada Carol Dartora (PT).
Hoje o Museu do Holocausto manifestou “espanto e indignação” ao tomar conhecimento de imagens e relatos de uma atividade ligada a um projeto sobre a Segunda Guerra Mundial. ” Entretanto, ainda mais grave é a proposta de entrevista. Segundo o texto publicado pelo colégio nas redes sociais (e já apagado), destacou-se o pai da entrevistada, caracterizado como “o seu pai era nazista e queria lutar pelo país”.
No restante do texto, esse indivíduo (que vale lembrar, não é descrito como um mero soldado convocado por obrigação, mas um nazista convicto) é tratado inacreditavelmente como uma vítima. Sua filha é descrita como “sobrevivente da guerra”. Cabe lembrar que o projeto do regime nazista pelo qual o pai da entrevistada “lutava” tinha em seu cerne a conquista e opressão de populações de outros países, o extermínio de pessoas consideradas racialmente inferiores ou perigosas e a perseguição a opositores políticos. O pai da entrevistada, portanto, mais do que alguém que passou por “muito sofrimento”, era parte de um movimento político que infligiu a outros esse sofrimento. Ou seja, entrevistou-se uma senhora cujo pai era nazista – e o colégio não aponta isso como algo condenável. Já a categoria de “sobrevivente” se aplica a pessoas de fato perseguidas.
“Embora sem dúvida vivenciar um período de guerra seja uma experiência sofrida e traumática, é muito problemático borrar diferenças entre experiências como a da pessoa entrevistada. A entrevistada, apesar de todas privações do período de guerra, não era perseguida por sua origem, ideias políticas ou por qualquer outro motivo – e pessoas, como os judeus, que foram alvo de um genocídio.
A estes, cabe a categoria “sobrevivente”.
Ainda segundo o Museu do Holocausto, chama atenção ainda o fato da entrevista ter sido realizada em cidade próxima a Rolândia. “O local se tornou, na segunda metade dos anos 1930, lar de muitos judeus alemães refugiados do nazismo. Há ampla bibliografia sobre o tema em livros e artigos acadêmicos. Muitos dos descendentes e alguns dos próprios imigrantes ainda estão vivos. Por que não foram eles os escolhidos para a dinâmica da entrevista?
A atividade do colégio “presta um desserviço aos esforços para que a memória do Holocausto e dos crimes nazistas sirva para a promoção dos direitos humanos e da democracia”, manifestou-se o MH, que já se colocou à disposição da Secretaria de Educação, do NRE de Apucarana e do Colégio “para que possamos orientar e, em conjunto, elaborar práticas éticas e significativas para o ensino de temas como Holocausto, nazismo e Segunda Guerra Mundial”.
Segundo Lázaro Ramos, a iniciativa do que parece ser apologia ao nazismo foi da professora Ana Paula Giocondo, que seria bolsonarista.
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