“O Cid Moreira do Paraná”

Nelson Balthazar, pioneiro da comunicação, que começou no rádio e se consagrou na televisão, ajudou a pôr no ar as antigas TV Tibagi, de Apucarana, e a TV Cultura, de Maringá, se recorda do sucesso das peças de radioteatro que encenava ao vivo, dos microfones cabeçudos e dos gravadores de rolo, numa época em que os programas radiofônicos dominavam a audiência
Um tucano pousa numa palmeira. Belisca o cacho de coquinho e volta à mata. Bem-te-vi, corruíra, sanhaços, sabiás e até um pássaro-preto. Não faltam aves na chácara de um alqueire, na zona rural de Apucarana. Um pequeno chalé, uma piscina e inúmeras plantas floridas embelezam o cenário. Ali vive Nelson Balthazar, apresentador do telejornal da antiga TV Tibagi, canal 11, de Apucarana. Pioneiro da comunicação paranaense, na divulgação do prefixo da emissora. Sua voz, que soava grave, demarcou um estilo que ficou na memória de uma geração.
Consegui o número do celular dele e combinei a entrevista. Eu e muitas pessoas querem saber por onde anda Nelson Balthazar. O encontrei na chácara que descrevi acima, a oito quilômetros do centro de Apucarana. Vanderlei Pelegrini, cujo sobrenome lembra um caminheiro, de pronto, topou me dar uma carona. Ao chegarmos ao local, Nelson e sua mulher, Ilma, nos recepcionaram no portão do imenso quintal. Na cozinha, um café passado na hora nos aguardava. Liguei o gravador. A prosa durou uma hora e 25 minutos.
De uma família de nove irmãos, cinco mulheres e quatro homens, Nelson é oriundo de Glicério, município de 4.138 habitantes (censo 2020), do interior paulista. Conterrâneo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Nascido em 23 de fevereiro de 1939, chegou a Apucarana em 1944, ano em que surgiu o município. João, o pai dele, trabalhava com fabricação de móveis rústicos, encaixados. A primeira moradia da família foi na Vila Regina, abaixo da linha férrea. Habilidoso na feitura de móveis, João conquistou vários clientes, inclusive, em outras cidades do norte e noroeste do Paraná.
A vida era difícil, mas João e a mulher, Rosa, se viravam para sustentar a família. No entanto, logo os filhos chegaram à idade de trabalhar. Nelson arrumou emprego no antigo Banco de Curytiba (se escreve com “y”). Em Apucarana, a agência funcionava no Edifício Reis, na Praça Manoel Ribas, conhecida por Redondo. Embaixo, a agência bancária; em cima, a antiga Rádio Difusora. O local era movimentado. Muitos ouvintes iam à emissora. Repórteres e locutores subiam e desciam a escada. Nelson, que tinha 17 anos, prestava atenção ao movimento.
Para satisfazer a curiosidade, ele subiu até a recepção da rádio e fez amizades com alguns funcionários. Assim, começou a frequentar o local. Um dos locutores da Rádio Difusora era Mário Vendramel, cujo pai tinha armazéns de café e cereais em Apucarana. Anos mais tarde, ele se tornou apresentador da TV Iguaçu, em Curitiba. A amizade entre Nelson e o pessoal da rádio cresceu. Um dia, pediram para ele fazer um teste, pois acharam que sua voz grave se adequava à locução. Teste feito, Nelson aprovado.
Para ganhar intimidade com o microfone, lhe deram uma participação de meia hora à noite. Dava recados e avisos e vez ou outra lia alguma notícia. Um bico após o expediente bancário. “Não ganhava nada, mas exercitava com gente experiente que me dava dicas, corrigia alguma coisa”, conta. Na época, se usava aqueles mícrones cabeçudos e gravadores de rolo. Para não gastar fitas, recomendava-se que o locutor, ao gravar, não repetisse o texto. Mas a Rádio Difusora passou a pertencer à Rede de Emissoras Coligadas de São Paulo. Com a mudança, a sede da emissora se transferiu para um prédio, na Praça Rui Barbosa.
Os diretores, que já haviam aprovado a locução de Nelson, lhe ofereceram um trabalho fixo na emissora. Ele se demitiu do banco. Apresentava um programa de variedades, auxiliava no noticiário e nos programas esportivos. Ao lado de sua irmã Jane Balthazar atuava nas peças de radioteatro apresentadas na emissora. Um professor que Nelson se recorda apenas do sobrenome, “Franco”, as escrevia. Sucesso absoluto. Os ouvintes aguardavam ansiosos o próximo capítulo. “Naquela época, o rádio era a principal fonte de informação e entretenimento”, diz.
Um dia, ele recebeu um telefonema. Diretores da Rede de Emissoras Coligadas o chamaram a São Paulo. Em reunião, lhe escalaram para trabalhar numa emissora da rede, em Cornélio Procópio. Eles faziam um rodízio de funcionários, transferindo-os de uma cidade para outra conforme a necessidade. Por lá ele ficou alguns anos. O empresário José Ignácio Neto, o Zé da Pinta, pôs no ar a Rádio Cultura, de Apucarana, e o convidou para voltar à cidade. Ele resistiu, mas com os sucessivos apelos, aceitou. “Telefonei para me buscar em Cornélio, e ele foi”, recorda-se. Entre outras atividades, apresentava um jornal à noite ao lado do radialista Osvaldo Dias.
Em 1969, surgia a TV Tibagi, canal 11. Diziam que Apucarana não a comportaria porque ainda era pequena com um comércio acanhado. Mas a previsão se confirmou o contrário, com ótima recepção ao novo meio de comunicação. Pertencente à Rede de Emissoras Independentes, de São Paulo, a TV Tibagi retransmitia a programação da Rede Record, com filmes, séries e jornalismo. A alta localização da cidade e os modernos equipamentos de transmissão proporcionavam uma ampla cobertura. O sinal da emissora alcançava grande parte do Paraná, oeste de São Paulo, Mato Grosso do Sul e regiões da Argentina e Paraguai.
Nelson diz que os técnicos bolaram um sistema de transmissão com antenas repetidoras. Eles as instalaram em várias cidades, fazendo propagar o sinal. “A gente recebia informações de regiões distantes que sintonizava nossa programação”, afirma. O faturamento, visto com desconfiança, se revelou muito bom. Após deixar a Record, a Tibagi retransmitia a programação da Rede Globo. O proprietário, o então governador do Paraná, Paulo Pimentel, com sua influência política, contribuía na venda de anúncios da emissora. “Uma vez tivemos o quinto faturamento da rede nacional”, acrescenta.
Na TV Tibagi, ele começou com a construção do prédio que abrigaria a emissora. A voz dele fazia as chamadas de caráter experimental do canal. Em 1975, ele fez o mesmo na TV Cultura (atual RPC), de Maringá, que também entraria no ar retransmitindo a programação da Rede Globo. Na TV Tibagi, como no rádio, Nelson era uma espécie de faz tudo. Gravava chamadas comerciais, apresentava telejornais e auxiliava nos programas esportivos, cujo titular era o narrador de futebol Fiori Luiz. Antes do Jornal Nacional, ele apresentava um programa com um resumo do esporte regional. “Nossa audiência era espetacular porque o povo queria ver os eventos sociais e esportivos locais”, diz.
No telejornalismo, Nelson lembra de sua colega de bancada, a apresentadora Tônia Maria, casada com o cinegrafista Marco Antônio, que também trabalhava na TV Tibagi. Ele diz que um dos momentos marcantes na emissora foi a famosa geada negra, na madrugada de 18 de julho de 1975. O pessoal da Globo do Rio de Janeiro pediu uma reportagem especial, com imagens dos cafezais queimados. A matéria iria abrir o Jornal Nacional, com destaque para o norte do Paraná, então grande produtor de café. Eles queriam uma imagem aérea, mas o telejornalismo local não dispunha de avião para fazer um sobrevoo nas lavouras queimadas.
A solução veio dos arredores da emissora. Na época, ao lado da Avenida Santos Dumont, na Vila Shangri-La, onde funcionava a TV Tibagi (atual rede Massa), havia uma lavoura de café. O corpo de bombeiros os auxiliou com uma escada de combate a incêndios. O cinegrafista subiu na escada; o caminhão dos bombeiros a ergueu. Ele filmou o cafezal dizimado. “Assim registramos aquela tragédia para a agricultura do estado que, com o sol da manhã, exalava um cheiro de mato queimado”, conta Nelson que, com a equipe da emissora, ganhou elogios da cúpula de telejornalismo da Rede Globo, no Rio de Janeiro, que exibiu as imagens e a reportagem no Jornal Nacional.
Ele seguia firme na TV Tibagi. Não raro era convidado para apresentar eventos sociais pelo Paraná. Época em que conheceu vários artistas nacionais. Muitos elogiavam sua voz, chamando-o de “Cid Moreira do Paraná”. Outros, a exemplo do conjunto 3 do Rio, o comparavam a Heron Domingues, famoso apresentador do Repórter Esso. “Tinha essas coisas, mas nunca me encantei, fazia o meu trabalho sem maiores pretensões”, afirma. A voz grave nos telejornais ficou na memória dos telespectadores. “Tinha gente que se dizia fã, e, às vezes, ia a lugares em que eu estava apenas para me conhecer”.
Mas houve momentos difíceis, por exemplo, a rusga entre Paulo Pimentel e o governo do presidente Ernesto Geisel (1974-1979). Os canais do seu grupo deixaram de retransmitir a Rede Globo. Por um tempo, a TV Tibagi ficou sem rede nacional, exibindo filmes e programação local. Associou-se à Rede Tupi que logo faliu, dando lugar ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).
Pimentel acertou com Silvio Santos, proprietário da rede, e passou a exibir a programação do canal paulista. “Uma época complicada, mas a estrutura e a audiência consolidada da Tibagi nos ajudaram”. Na emissora, ele passou pelo telejornalismo, departamento comercial e chegou a diretor geral, função na qual se aposentou com mais de 60 anos de trabalho no rádio e televisão.
Maverick, uísque e amizades
Nelson tem duas filhas. Nathalia da atual união com Ilma Araújo Albuquerque Balthazar, 58 anos; Luciana do primeiro casamento. De uma família de comunicadores. Mário Balthazar, seu irmão, foi um dos fundadores do antigo jornal Tribuna da Cidade, de Apucarana. Jane Balthazar, irmã, se destacou na comunicação e na organização de eventos sociais.
Aos 84 anos, ele se diz realizado, não ficou rico, mas ganhou o suficiente para viver uma tranquila aposentadoria. Se queixa de não ter cursado uma faculdade, sonho complicado na época em que concluiu os estudos básicos. “Aqueles que terminavam o antigo segundo grau, que foi meu caso, iam estudar nos grandes centros”, diz. “Eu precisava trabalhar e não pude ir”.
Mas para ele o que valeu foram as amizades. Ele gostava de compartilhar um uísque com os amigos. Nos anos 1950 e 1960, Apucarana tinha uma veia boêmia. Havia movimentados bares, até alguns famosos cabarés. Na saída para Londrina uma boate marcou época. Na porta dela, em 1963, o compositor Benedito Seviero esboçou a letra de “Boate Azul”, que se imortalizou nas vozes de Joaquim e Manoel e nas de tantas duplas que a regravaram.
Carrões, uma paixão. Um karmann-ghia, seu primeiro carro. Entre outros, teve um maverick. Numa madrugada, voltando de um baile, bateu-o num poste perto da antiga Paranamotor, em Apucarana. Saiu ileso e no outro dia avisou à polícia que o carro, que deixara no local, era seu. Contudo, Nelson nunca teve maiores problemas. Ele diz que suas aventuras eram de um jovem consciente que, após a diversão, enfrentaria o batente para ganhar o pão de cada dia. “Vivi minha juventude em um tempo tranquilo, sem a violência de hoje, em qualquer circunstância, havia respeito”, diz.
Fotos: Arquivo pessoal
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