As cores da democracia

A plena liberdade de expressão não se restringe somente às palavras ou pensamentos

Apenas três palavras. Mas com potencial suficiente para suscitar distintas interpretações. Altas autoridades haveriam de se abster em empregar determinadas expressões coloquiais, por conta da relevância do cargo que ocupam. Não foi dessa forma a postura do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, no julgamento dos atos praticados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, nas comemorações do Bicentenário da Independência. Ao se referir à presença do empresário Luciano Hang no palanque das autoridades, reconhecidamente apoiador do governo à época, o eminente julgador classificou a tonalidade cromática de sua indumentária como “vestimenta verde-periquito”.

Em que pesem as preferências estritamente pessoais do erudito ministro no quesito elegância alheia, a iniciativa em se equiparar momentaneamente a um crítico de moda e o inexplicável tom pejorativo não condiz com sua relevância no exercício do cargo, tampouco figura no rol das atribuições precípuas de qualquer magistrado.

Não obstante a citada manifestação pessoal estar inserida no contexto geral do tema debatido, há que se ressaltar as consequências desse ato. Se porventura isso ocorreu eventualmente de forma involuntária, a referência à pigmentação da vestimenta do aludido cidadão se mostra como uma citação metafórica, um pretexto para reforçar suas convicções acerca dos fatos em análise. Ocorre que a mensagem subliminar oculta nas entrelinhas alcança não somente a figura pública do habitual usuário da indumentária verde-amarela, mas todo e qualquer cidadão que imagina estar amparado pela Carta Magna, em seus direitos elementares. Decerto não ignora o douto magistrado que as aves da família dos psitacídeos possuem coloração diversificada, variando do azul claro ou escuro, amarelo e verde, albino, amarelo e violeta, cinza, branco com preto e ainda diferentes tonalidades de cor vermelha púrpura.

Portanto, equiparar os tons vistosos e exuberantes tradicionalmente utilizados pelo convidado presidencial à dos pássaros multicoloridos não pode ser considerada atitude ética, muito menos pertinente, mas uma demonstração gratuita de indelicadeza, mesmo porque os critérios para avaliação do caráter de uma pessoa definitivamente não se fundamentam em suas vestimentas.

Independentemente de conceitos ou predileções pessoais, o cidadão brasileiro tem o direito de se trajar com as cores de sua preferência, sejam verdes, amarelas, azuis, brancas, vermelhas ou quaisquer outras tonalidades. Elas representam a democracia e a independência de um povo ordeiro e trabalhador. A plena liberdade de expressão não se restringe somente às palavras ou pensamentos. Abrangem sentimentos inalienáveis presentes naqueles que carregam consigo valores éticos e morais e ainda todas as formas de manifestação cívica. Inclusive o uso de vistosos trajes “verde-periquito”.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.

Foto: Palácio do Planalto