Contemplando a paisagem

A aposentadoria se materializou em formas, cores e aromas nunca imaginados

O tempo passou rápido demais. A uma velocidade supersônica. Tudo aconteceu em um piscar de olhos. No lampejo de um corisco no céu. Em um milissegundo imaginário, catapultados impiedosamente para o futuro incerto e desconhecido. Ainda ontem eram lindos jovenzinhos, ostentando orgulhosamente indefectíveis buços juvenis. Esbanjavam vitalidade e destemor, a enfrentar corajosamente os incontáveis obstáculos que surgiam pelo caminho. Que imaginavam em suas ingenuidades quase pueris, conquistar o merecido lugar ao sol, apesar das intercorrências naturais da vida como um investimento mal sucedido, uma grave enfermidade ou mesmo a derradeira finitude, às vezes precoce e inesperada, de um familiar ou amigo próximo.

Caminharam juntos na juventude e dividiram sonhos, vontades, esperanças. A responsabilidade em prover a família determinou a escolha do caminho a ser percorrido, muitas vezes árduo e pedregoso. A chama acesa da confiança no sucesso dos projetos a serem materializados, dos momentos de devaneios legítimos jamais realizados aos poucos se desvanecia, como as nuvens errantes que vagueiam no céu ao sabor da aragem suave.

A vida produtiva foi marcada pelo trabalho incessante. Com chuva ou sol, frio congelante ou calor escaldante, dias, noites e madrugadas, companhias fiéis na longa e profícua caminhada. Foram décadas de dedicação, empenho, persistência, sofrimentos, tropeços, alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, conquistas, recomeços. Eventuais ressentimentos relevados, a indispensável assepsia nos resquícios das singularidades profissionais concluída, eis que finalmente o tão esperado momento chegou. Aquele pequenino ponto brilhante no céu noturno, antes inalcançável e distante, agora com sua luz resplandecente, finalmente transformado em realidade.

A aposentadoria se materializou em formas, cores e aromas nunca imaginados. A idade se encarregou de impor seus limites. Físicos, emocionais e intelectuais. Não necessariamente nessa ordem, pois a lista é suscetível a novas e inesperadas inclusões vindouras e desconhecidas nesse plano existencial terreno. Aceitar, compreender e incorporar a passagem do tempo e suas indeléveis influências no cotidiano é fator determinante para uma vida tranquila e agradável doravante, apesar dos efeitos indesejados do calendário no lombo, lembrados constantemente pelas dores musculares persistentes, que teimam em mudar de lugar a cada novo alvorecer.

A velocidade da viagem para os mais experientes é naturalmente reduzida e a paisagem deve preferencialmente ser contemplada sem pressa. Os acontecimentos prazerosos na melhor idade se transformam em um passeio pela incrível e inebriante simplicidade da vida, apesar dos constantes e quase irrecusáveis apelos da tecnologia moderna. É o privilégio em se cultuar sem pressa os momentos especiais, que merecem ser imortalizados na memória e nos diferentes dispositivos de armazenamento de dados.

Findada a responsabilidade em criar, educar e encaminhar os filhos pelos caminhos virtuosos da vida encerra-se o ciclo primordial daquele núcleo familiar. A expectativa pela chegada da próxima geração estimula sentimentos e sensações distintas, deixando a paisagem muito mais florida, colorida e perfumada. Agora, investido da capacidade em saborear os aromas agridoces da experiência e da sabedoria, contemplar a paisagem é um ato de extrema satisfação. E ao olhar para o passado cada vez mais distante, o sentimento de missão cumprida supera todas as adversidades impostas pela maturidade. Então, é chegada a hora de procurar a sombra aconchegante de uma árvore frondosa e apreciar a paisagem que a vida nos oferece. Sem moderação.      


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

Foto: Kelly

Advertisement
Advertisement