Plantem comida para o povo

Vale a pena ser “celeiro do mundo”, enquanto 7 milhões de famílias brasileiras dependem de esmolas oficiais com o nome de bolsa-família?

É verdade que a produção do agronegócio é fantástica. Mas será
que a preocupação mais importante não é a de plantar para exportar, deixando para segundo plano a produção de alimentos para os brasileiros ? Será que o arroz e o feijão de cada dia é prioridade do modernizado e poderoso agronegócio?

Não há dúvida de que o carro-chefe do agronegócio é o soja. Somente a China adquiriu 75.6 milhões de toneladas de soja em 2.023. Os chineses são habituados a consumir soja; os brasileiros preferimos o arroz e o feijão. É por isso que o Brasil tem importado arroz do Paraguai, do Uruguai e até da Índia e dos EUA. Já o feijão “brasileiro” é importado principalmente da Argentina. No caso do feijão branco, o Brasil importa 100% do consumo.

O Brasil, via agronegócio, está pronto para garantir a exportação para a demanda chinesa nos próximos anos. Enquanto isso, os alimentos nos supermercados estão caríssimos. O pão de cada dia está mais e mais difícil principalmente para os 80% de brasileiros que sobrevivem com baixos salários.

O gigantesco agronegócio concentrou-se em latifúndios e liquidou a maioria das propriedades familiares geradoras de alimentos. A importação de nossa cesta básica sai cara demais para a maioria dos trabalhadores que tenta sobreviver com o salário mínimo, fatalmente em perene subnutrição e longe de viabilizar uma alimentação de qualidade para as famílias deles.

Vale a pena ser “celeiro do mundo”, enquanto 7 milhões de famílias brasileiras dependem de esmolas oficiais com o nome de bolsa-família? Entre essas famílias, estão ex-trabalhadores do campo expulsos da terra, hoje desempregados ou que engrossam as estatísticas dos moradores de rua nos centros urbanos.

Sem qualquer planejamento fundiário, produzir alimentos deixou de ser prioridade.

É possível conciliar a plantação de comida para os brasileiros com o plantio de soja ou da cana de açúcar, hoje toda mecanizada e sem espaço até para o antigo corte de cana braçal.

Que uma iniciativa governamental exija prioridade para a produção de alimentos. Finalmente, o celeiro do mundo não pode ser indiferente a filhas e filhos famintos, progressiva casta de oprimidos cada vez maior.


(*) Tadeu França
professor universitário e ex-deputado federal constituinte