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Ite, missa est

Carta enviada por dom Paulo Evaristo Arns, uma das minhas referências

Vocês sabem que sou católico praticante (esquerda católica). Referências na juventude: Dom Hélder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns. Daí a dificuldade da Dops em identificar-me como comunista. A primeira missa na catedral foi também na intenção do xará Antônio Tadeu Rodrigues. Notei que ele era mais jovem do que eu…

Vejam, por exemplo, esta carta de dom Paulo Evaristo Arns:

Ite, Missa Est

Em sua carta, Constituinte Tadeu França, você me pergunta a respeito do papel da Igreja do Brasil durante a mais cruel ditadura militar de nossa história. Passo a responder-lhe, dizendo que a nossa Igreja Cristã-Católica mostrou poucas reações seguras contra torturas, desaparecimentos e mesmo prisões arbitrárias. Destaco um mártir: o jovem frei dominicano Tito de Alencar, que pagou com a própria vida o compromisso de fidelidade pastoral aos perseguidos, depois de ter sido simplesmente destruído nos porões da tortura.

Na Argentina, os principais ditadores foram presos, julgados e condenados.
Em nossa Pátria, os próprios opressores se anistiaram. Os torturadores e assassinos jamais foram presos, julgados e condenados, esquecidos que se fizeram de que o Deus do Amor é o mesmo Deus da Justiça.

Quanto à violência entre os oprimidos, eu a vejo como fruto do desespero.É que a miséria degrada o homem na sua dignidade e o degradado parte para a violência, única e desesperada arma de defesa.

Sim. Acompanhei sempre que possível os familiares dos desaparecidos ao Palácio do Planalto. Ao General Golbery do Couto e Silva entreguei um dossiê sobre os dramas dos familiares em desespero. Sei que não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu. O desaparecido transforma- se numa sombra que, ao escurecer, se vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena. Recomendo-lhe a leitura do livro: “Brasil: Nunca Mais” por mim prefaciado.
A Igreja é o Povo.

Paulo Evaristo,
Cardeal Arns.

Ilustração: Kaltoé

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