João Batista veio de Balneário Camboriú, vive de bem com a vida sonhando com um violão novo e aproveitando a simplicidade máxima cotidiana pelas ruas de Maringá
Por Wilame Prado/Fotos: Rafael Silva
Ainda bem que faz calor nesta época do ano, ao contrário de toda aquela neve que vemos nos filmes hollywoodianos de Natal. A previsão é de máxima de 30ºC em Maringá, onde João Batista (foto) vive há 15 anos pelas ruas. Sem frio e neve por aqui, ele certamente estará na rua em mais uma véspera de Natal.
João Batista veio de Balneário Camboriú, canto litorâneo catarinense amado por tantos maringaenses e eternizado no cancioneiro pop sertanejo graças à canção “Descer pra BC”. Ele não descerá pra BC, nunca mais desceu e, ainda assim, vive de bem com a vida sonhando com um violão novo e aproveitando a simplicidade máxima cotidiana pelas ruas de Maringá.
Assim como ele, existem vários moradores de rua naquela que dizem ser a melhor cidade do País para viver, fato comprovadamente falso e largamente utilizado pelas narrativas e pelo marketing atento às oportunidades que alimentam o ego dos dirigentes políticos e dos barões locais da especulação financeira e imobiliária.
Em um lúcido artigo publicado no Blog do Rigon, cujo autor maringaense desconheço (ele optou pelo pseudônimo Vicente Ruivo Rodrigues dos Anjos), tive conhecimento sobre um levantamento coerente apontando Maringá como a 15ª melhor cidade para viver do País, com base no Índice de Progresso Social do Brasil (IPS Brasil), divulgado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente em julho de 2024 e que contou com a parceria da Fundación Avina, Amazônia 2030, Anattá Pesquisa e Desenvolvimento, Centro de Empreendedorismo da Amazônia e Social Progress Imperative.
O relatório apresentado mede a qualidade de vida dos 5.570 municípios brasileiros utilizando 52 indicadores de órgãos oficiais e de institutos de pesquisa, como DataSUS, Conselho Nacional de Justiça, MapBiomas, Anatel e CadÚnico, no intuito de chegar a dados relativos a 3 grandes pilares: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos para o Bem-Estar e Oportunidades.
Seja em primeiro ou em 15º lugar, a grande verdade é que índice algum consegue traduzir a essência do viver. Maringá é sim uma ótima cidade para morar, e desconfio que inclusive os moradores de rua concordem comigo. Conheci um pastor que trocou Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, por Maringá.
Esse pastor passou a ser um combativo defensor de sua cidade atual, onde, há uma década, começou do zero um projeto cujo propósito é evangelizar moradores de um dos bairros mais carentes maringaenses, o Conjunto Habitacional Requião. No comparativo entre Maringá e o Estado do Espírito Santo, ele sacramenta sem medo de errar: “Maringá é muito melhor, aqui o serviço público funciona, tudo funciona.”
A situação de vulnerabilidade social de João Batista não é uma exclusividade da terceira maior cidade do Paraná. A população em situação de rua cresce ano após ano em todo o País. Em 2023, 261 mil pessoas viviam em situação de rua no Brasil, número 11 vezes maior que há dez anos. Nos dois primeiros meses de 2024, mais 10 mil pessoas foram para as ruas. Os dados são do Observatório de Políticas Públicas da UFMG.
Na época do Natal, as pessoas tendem a lembrar dos esquecidos, dos desvalidos, dos solitários, dos sem teto, dos sem coisa alguma na vida. Mas esse sentimento passa rápido. Logo vem as viagens, o IPTU, a lista do material escolar, o Carnaval e a corrida desenfreada pelo dinheiro, na ânsia de consumir e de mostrar o seu consumo nas redes sociais. Infelizmente.
Que João Batista e todos nós possamos assistir e nos beneficiarmos de políticas públicas efetivas na geração de emprego digno para todos, moradia e assistência social séria e comprometida. Quem sabe ele não consiga ganhar um violão de presente de Natal, de alguém que tenha ficado na hoje isolada Maringá, desfalecida pela descida em massa para BC! Feliz Natal, na medida do possível.
(*) Wilame Prado é jornalista e assessor parlamentar
(*) Rafael Silva é fotógrafo
