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De Zé Botão a Coronel do Rancho

Falar de Coronel do Rancho é falar da história do rádio maringaense, mas também do Paraná e do Brasil

No fim da década de 1950, um sujeito moreno, estatura mediana, físico avantajado, chapéu de couro e um notável bigode preto, chegava à Rádio Cultura de Maringá com uma viola acomodada numa capa preta. Os funcionários haviam até se acostumados com a cena. A Cultura, mais antiga emissora de rádio da cidade, funcionava na esquina das avenidas 15 de Novembro e Herval. Aquele violeiro e cantor era Tião Carreiro, da dupla com Pardinho. Ambos vinham a Maringá com frequência. Mas Tião permanecia no antigo Hotel Paulistano até por seis meses.

A dupla, iguais a tantas, se hospedava em Maringá e cumpria agendas de shows na região. Pardinho retornava a São Paulo, mas Tião, quase sempre, ficava. Orlando João Zenaro Manin, que havia entrado na Rádio Cultura em 1954 e ainda atendia pelo apelido de Zé Botão, se tornou amigo do violeiro. Numa salinha aos fundos da Rádio, ao lado de Zorinho, Osório Ferrarezi, que anos mais tarde se transformou no Maestro Itapuã, Tião criava um novo jeito de dedilhar a viola, uma batida que passou a se chamar “pagode de viola”.

Zé Botão ficava por ali, olhos atentos aos segredos daqueles dois tocares, um sentado à frente do outro. O pagode que faria sucesso em 1961, com lançamento de “Pagode em Brasília”, nascia ali. Zé Botão revelava liderança entre os artistas e um dia ouviu de Zé Mineirinho do Trio Repentista que aquele nome “não pegava bem”. Ele o encarou e respondeu: “Mas você acha isso mesmo?”. “Não tenho dúvidas”, confirmou, lhe sugerindo que passasse a se chamar “Coronel do Rancho”. Não é que deu certo. Daquele dia em diante, o rádio conheceu o Coronel.
Que logo passou a gerenciar a Rádio Cultura e lançou um elenco de artistas que se apresentava na emissora. Dividia com Nhô Quinca, da Rádio Difusora, a apresentação dos lançamentos de duplas e trios de São Paulo, que os procuravam para lançar os discos no norte e noroeste do Paraná. Coronel também fazia sucesso nos festivais de violeiros, que organizava no auditório da Rádio Cultura. Lançou muitas duplas. Com destaque para Zezinho e Zorinho, que fizeram sucesso nos circos pelo Paraná, interior de São Paulo e Mato Grosso, antes da divisão daquele estado.

Falar de Coronel do Rancho é falar da história do rádio maringaense, mas também do Paraná e do Brasil. À primeira vista, um homem de poucas palavras. Mas quem o conheceu e mergulhou na sua intimidade, pôde constatar que não era nada daquilo. Uma pessoa formidável, bom papo e sempre disposta a contribuir com a história, revelando importantes relatos.

Ele morreu neste 19 de janeiro. Entrevistei ele algumas vezes, sempre descobria algo novo do rádio maringaense. Aos mais de 50 entrevistados soma-se Coronel do Rancho, que darão feitura ao meu livro sobre a história do rádio e da moda caipira em Maringá. Que um dia lançarei!

A foto que ilustra este texto eu a fiz no pátio do prédio onde morava o Coronel do Rancho, em Maringá. Ele nos mostrava os discos em vinil de antigas duplas caipiras que guardava no seu apartamento.

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