Egos inflados

Em pleno século 21, é ponto pacífico a necessidade de uma qualificação mínima dos representantes do povo

Era uma vez um pequeno município do interior paranaense. Quarenta e poucos mil habitantes, estrategicamente localizado entre duas importantes regiões metropolitanas, contemplado com rodovias duplicadas, topografia plana ou levemente ondulada, agricultura, comércio, indústria e construção civil em acelerado crescimento, população ordeira e trabalhadora. Enfim, todos os requisitos essenciais para ser considerada como uma localidade perfeita a se empreender e fixar residência. Essa cidade acolhedora oferece boa qualidade de vida por conta de suas vias espaçosas, bem iluminadas e arborizadas. Os serviços públicos são satisfatórios e ainda ostenta com orgulho em suas entradas principais, obeliscos que reafirmam a justa homenagem do título de capital da uva fina de mesa, representado pela imensidão de seus produtivos parreirais. Nesse cenário de positivismo, presume-se que a vida por ali seria uma prazerosa calmaria. Só que não.

Especificamente no ambiente político desse prolífero pedaço de terra, parece que os legisladores municipais vez ou outra, se deparam com desencontros pontuais em seus respectivos posicionamentos. Sabe-que uma das singularidades do parlamento é exatamente o embate de ideias, mas o munícipe espera que isso se proceda com compostura, minimamente civilizado, respeitando-se as diferentes vertentes, requisito básico para o exercício da plena democracia. Essa peculiaridade em suscitar antagonismos recorrentes nas casas de leis ocorre em absolutamente todas as nações. Há casos em que o imbróglio culminou em vias de fato, algo inadmissível diante da relevância dos legisladores na composição dos poderes constituídos. Mesmo que sejam consideradas dissonâncias transitórias, ocasionais, a percepção da população com relação à má conduta dos parlamentares em plenário é algo lastimável.

Em pleno século 21, é ponto pacífico a necessidade de uma qualificação mínima dos representantes do povo. Nota-se a que o discernimento com relação ao perfeito desempenho da atividade parlamentar e a capacidade de expressão de alguns vereadores deixam a desejar, levando a interpretações dúbias e descontextualizadas com o tema debatido. Evidentemente que o traquejo na função se adquire com o tempo, mas sem mediocridades, principalmente porque o eleitor depositou naquele candidato seus anseios por demandas legítimas da sociedade.

Há que se ressaltar ainda os sentimentos presentes em alguns integrantes da casa legislativa daquele frutífero município, revelados nos egos desnecessariamente inflados, a desafiar os pares e a mostrar quem realmente detém o poder. Indiferentes aos apelos por comedimento, moderação, sensatez, polidez, civilidade e outros tantos sinônimos análogos e movidos pela ousadia, acabam tumultuando deliberadamente as sessões, por vezes somente para assegurar a paternidade de algum projeto de lei ou para reclamar de críticas postadas em redes sociais, deixando em segundo plano suas atribuições precípuas e, por conseguinte, os interesses da população. Diante desses desabonadores acontecimentos, poder-se-ia sugerir a substituição do tradicional cafezinho por um saboroso suco de maracujá, cujas propriedades relaxantes haveriam de apaziguar os desassossegados representantes. E se essa medida não surtir o efeito desejado, resta então exigir dos parlamentares municipais um pouco mais de educação e respeito. Seria pedir demais?


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR