Em tempos de “flexibilização”, uberização, pejotização, uso de novas tecnologias como as IA, é premente pensar os sentidos históricos, políticos e o futuro do trabalho
Por JOEL CAVALCANTE
O dia Primeiro de Maio historicamente tem uma relação com a reivindicação de melhorias nas condições de trabalho. Como sabemos, a data é oriunda da repressão violenta aos protestos de trabalhadores na cidade americana de Chicago. Em 1886, os trabalhadores amargavam extenuantes jornadas de 14 horas, escalas degradantes e insalubres, semelhantes ao período da Revolução Industrial, cujos trabalhadores, entre os quais mulheres e crianças, eram submetidas a 16 e até mesmo 18 horas diárias de labor.
Pensar a relação da luta por uma escala de trabalho mais digna nos remete à ainda incipiente e tímida, discussão da substituição da escala 6 por 1, pela razoável 5 por 2. Em uma “sociedade do cansaço” que nos remete Chull-Han, e numa era endêmica de adoecimento mental, estudos comprovam que uma redução na jornada, além de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, aumenta a produtividade das empresas.
No Brasil, o Primeiro de Maio foi fortalecido nos governos Getúlio Vargas, apesar de todas as contradições do gaúcho de São Borja, a CLT é um marco desse período histórico e acepção pela garantia de direitos. Hoje, ironicamente, os jovens têm uma aversão ao termo “CLT”, usando até mesmo como termo para ofender uns aos outros. Afinal, o grande sonho dessa geração é “empreender”. Haverá espaço para todos os empreendedores? Haverá espaço para toda uma geração de Enzos e Valentinas que almejam ser influenciadores digitais?
Olhando pelo retrovisor mas prospectando o futuro, há que se refletir nesse dia sobre o futuro do trabalho. Como o advento das IAs (Inteligências Artificials), que caminha a passos largos, impactarão o futuro de muitas profissões como o jornalismo, o mundo jurídico, educacional?. Aliás, dia desses acompanhei um episódio do Rigon Cast em que dois jornalistas históricos aqui da nossa cidade – Ângelo Rigon e Edivaldo Magro – falavam, nostálgicos, das antigas redações de jornal na cidade. Toda a discussão que envolvia os fechamentos editoriais, um ambiente carregado de fumaça de cigarro e muito café, mas também carregado de ideias. De uma caligrafia que se fazia a punhos após muitos debates e queima de neurônios, a opinião crítica embasada, apuração dos fatos e mobilização da opinião pública. Hoje, esse velho mundo das redações jornalísticas ficou para trás, diziam eles.
No lugar dos velhos ambientes, temos prospecções distópicas de um admirável mundo novo: a pejotização do trabalho, que obriga o trabalhador a abrir uma empresa e se cadastrar como MEI (micro empreendedor individual), abrindo mão de muitos direitos e isentando a empresa de obrigações trabalhistas. A uberização do trabalho, onde vende-se a ilusão de “ser um empresário de si mesmo”, mas a realidade é que esse novo proletário digital de aplicativos encontra-se totalmente desamparado por uma legislação e uma rede de proteção social. Eis o que Camus chamava do “privilégio de servidão”.
É claro que não podemos negar a modernização das relações trabalhistas. Segundo o IBGE, 80% das pequenas e médias empresas fecham suas portas já no primeiro ano. É preciso facilitar a atuação de pequenos e médios empresários no Brasil, estrato empresarial que mais sofre com a falta de incentivos e com a pesada tributação. Mas há que se pensar em uma balança justa para empresários e trabalhadores.
Por fim, entre o dia do trabalho e o dia do trabalhador, fiquemos com o segundo. Longe do esvaziamento político dessa data, devemos pensá-la à luz das condições atuais e os complexos desafios que o século XXI e precarização das relações trabalhistas nos apresenta. Segundo a filósofa Marilena Chauí, se a história é dialética, haverá sempre novas formas de resistência e questionamentos aos modelos que nos desumanizam. A criatividade humana nunca será suplantada pelas máquinas. São velhos tempos modernos e novos desafios.
