Quem nunca errou, não coloque a mão à palmatória

A palavra arde sempre mais na pele do outro do que na própria e a sabedoria está, não na violência, mas em como empregar a própria conduta no dia a dia

“A gente precisava providenciar um outro tipo de armamento para nossa Guarda Municipal. Não vai ter emenda parlamentar para isso, mas a gente providencia com orçamento do município, um outro tipo de armamento: a Palmatória. Tem bandido aqui que precisa tomar uma surra.”

Quando ouvi esse comentário do prefeito Silvio Barros, achei, sinceramente, que fosse simplesmente uma piada de mau gosto. Uma piada que precisaria ser retratada como um erro de “performance”. Uma fala mal colocada no contexto errado. Foi com o mais frio constrangimento que, em seguida, vi o prefeito, com uma bíblia em mãos, se justificando.

Deixa eu te contar uma coisa, prefeito. Violência não é e nunca foi a solução. Juntar meia dúzia de versículos soltos da bíblia não justifica o indefensável. Muito me preocupa a autoridade máxima do município com esse tipo de argumento. Não do uso da bíblia em si, mas utilizar a bíblia para justificar a violência e a fragilidade da própria fala.

Não bastasse a falta de tato sobre o tema, o discurso ocorre na mesma semana em que as crianças de um abrigo rebelaram-se a partir de denúncias de agressões. O senhor acha correto isso? Agressão como forma de disciplina? Essas crianças, por exemplo, merecem dar as mãos à palmatória? O senhor brada muito sua voz ao vento e suas ações ficam como o som: invisíveis e intangíveis.

Diferentemente do que você diz, o que coage a violência é a educação, o esporte e a cultura. É livro novo na biblioteca, é óleo na cozinha para a merenda. É uniforme escolar entregue em dia. É professor valorizado em sala de aula. Um homem que acredita que a palmatória e a violência são as bases da disciplina carece certamente de boa companhia e alicerce intelectual.

Faça uma indagação: o senhor daria suas mãos à palmatória para cada atraso, erro ou desvio (mínimo e civil) que seja seu ou do seu “rebanho” de assessores na administração do município? A palavra arde sempre mais na pele do outro do que na própria e a sabedoria está, não na violência, mas em como empregar a própria conduta no dia a dia.

“‘Mestre, esta mulher foi pega no ato de adultério’, disseram eles a Jesus. ‘A lei de Moisés ordena que ela seja apedrejada. O que o senhor diz?’

Procuravam apanhá-lo numa armadilha, ao fazê-lo dizer algo que pudessem usar contra ele. Jesus, porém, apenas se inclinou e começou a escrever com o dedo na terra. Eles continuaram a exigir uma resposta, de modo que ele se levantou e disse: ‘Aquele de vocês que nunca pecou atire a primeira pedra’. Então inclinou-se novamente e voltou a escrever na terra.

Quando ouviram isso, foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos, até que só restaram Jesus e a mulher no meio da multidão.”

Por fim, prefeito, digo: não tenho medo de errar. Tenho medo de não saber reconhecer meus erros. Creio que esse anseio deveria ser compartilhado por homem que ocupa tão prestigioso cargo no município e na confiança de tantas pessoas. Lembre-se: a certeza é a mãe de todos os erros. Desta vez, tamanha a veemência e convicção com que trata o tema, acredito que mereça uma pausa e reflexão.

Use o dinheiro da palmatória para comprar livros. Use a bíblia para compartilhar fé e esperança, e não falsas justificativas para violência, querendo justificar os próprios argumentos vis. A palavra é a mais poderosa arma da humanidade. O conhecimento, sem dúvida, é a munição. Use-as para o bem.