A Bíblia não caiu pronta do céu


Algumas correntes disputavam a hegemonia da nova religião. Venceu esta que se alastrou pelo mundo, cuja doutrina foi moldada pelos Concílios
A chegada da internet serviu para muita coisa. Uma delas é a expansão dos estudos do “Jesus Histórico”. No YouTube, há muitas bobagens sobre o assunto, mas especialistas sérios se dedicam a estudá-lo, divulgando ótimas análises. Vale dizer que não é teologia, que trata da fé no personagem. Quem o estuda por esse viés, tudo bem. Mas há estudiosos que o analisam, desviando-se da metafísica. Destaco o professor André Chevitarese, um pioneiro dos estudos do “Jesus Histórico” no Brasil.
Concluí em 2023 uma especialização na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Denominada “Religiões e Religiosidades”, me acrescentou muito e me ensina, cada vez mais, se tornar um pesquisador do Cristianismo e do “Jesus Histórico”. Que inclusive foi objeto do meu TCC. Elaborei um artigo de 25 páginas sobre a entrada de Jesus no Templo de Jerusalém, analisando-a do ponto de vista histórico. A ajuda da minha orientadora professora e doutora Monica Selvatici foi fundamental.
Portanto, ao entrar num sebo procuro livros que tratam do assunto. Numa estante lá nos fundos, onde ficam aqueles exemplares que não disputam os melhores lugares da vitrine, encontrei “A origem do Cristianismo”, do historiador e filósofo russo Jacó Abramovitch Lentsman. Um exemplar velhinho, de 1961. Em casa, precisei colá-lo. As folhas se soltavam. Apesar de algumas análises dele estarem superadas pelas descobertas arqueológicas, valeu a pena lê-lo.
O autor destaca o crescimento do Cristianismo no Império Romano, que pode ser dito no plural. Algumas correntes disputavam a hegemonia da nova religião. Venceu esta que se alastrou pelo mundo, cuja doutrina foi moldada pelos Concílios. Outra luta foi o estabelecimento do cânone do Novo Testamento. Para sacramentá-lo, houve ferrenho embate contra as chamadas heresias. Portanto, a Bíblia não caiu pronta do céu. As correntes com maior influência política a elaboraram como a conhecemos hoje.
Lentsman aborda o personagem Jesus sob a ótica de vários estudiosos que viveram após a morte dele. Um deles é Justino Mártir, que viveu no ano 100 da E.C. Nascido na Síria revelou nos seus escritos as acirradas lutas no ventre do Cristianismo para estabelecer os quatro Evangelhos. Outro é Orígenes que nos legou o belo livro “Contra Celso”. Para defender Jesus, digladia com o filósofo Celso, que viveu no século II, revelando detalhes da vida de Jesus.
O assunto é vasto. Não vou me estender. Leiam o livro. Ou outros que o abordem. Por exemplo, os do próprio André Chevitarese, doutor em história e professor do Instituto de História da UFRJ. A professora Monica Selvatici também. Professora e pesquisadora, ela tem livros e artigos publicados. Fora do Brasil, há vários especialistas em “Jesus Histórico”. Cito Bart Ehrman, Geza Vermes e John Dominic Crossan. Mas, cuidado com os picaretas!