Restam as lembranças que acompanham gerações privilegiadas pela educação recebida, em que os pronomes de tratamento senhor e senhora eram naturalmente direcionados aos mais velhos
Comemora-se no dia 15 de outubro o Dia do Professor. Nessa data, em 1827 o Imperador Dom Pedro I baixou um decreto imperial criando o Ensino Elementar no Brasil, assegurando a criação de escolas nos municípios e vilarejos, estipulando as bases para a organização da educação e a contratação dos professores. Em 1963 a data foi institucionalizada como feriado escolar nacional. No Japão, a reverência ao professor é um sinal de respeito e admiração, parte fundamental da cultura educacional e da etiqueta social e esse costume é ensinado desde a primeira infância, demonstrando o reconhecimento do professor como um mestre e orientador. Infelizmente por aqui, a coisa se mostra um pouco diferente dos costumes milenares da terra do sol nascente.
Nosso País experimenta uma onda interminável de flagrante desrespeito aos educadores. A violência vai muito além de casos isolados de agressões físicas ou verbais. Há que se questionar as razões ou as verdadeiras intenções por tais atos, que já se transformaram em uma cultura de indisciplina e precariedade moral, a contaminar o cotidiano escolar. Elencar apenas determinados pretextos para fundamentar desvios de conduta, como turmas numerosas, infraestrutura deficiente e a inocuidade dos mecanismos oficiais de controle não seria a análise mais adequada.
Paras as pessoas que não possuem formação nas áreas específicas em desajustes comportamentais, é razoável imaginar que a violência no ambiente escolar seja proveniente do atual cenário de permissividade da sociedade, incluindo-se necessariamente a visível degradação do ambiente familiar, influenciada pelo acesso irrestrito e incontrolado aos conteúdos perniciosos das redes sociais. Isso explicaria, em tese, as desavenças que terminam em vias de fato entre os próprios alunos. As incompreensíveis discrepâncias entre direitos e deveres fundamentais pode se tornar fator de estímulo a comportamentos violentos, no momento em que um hipotético ato delituoso praticado por menor de idade recebe na imensa maioria dos casos, a punição como um “afago condescendente”, devido à questionável dosimetria preconizada pela legislação pertinente.
Diante dessa lamentável situação, restam as lembranças que acompanham gerações privilegiadas pela educação recebida, em que os pronomes de tratamento senhor e senhora eram naturalmente direcionados aos mais velhos. De uma época em que os alunos levantavam-se educadamente de suas carteiras, ao receber o professor ou a professora em sala de aula. Da postura altiva e necessariamente ordeira, ao entoar o Hino Nacional ou do município ou o hasteamento do pavilhão verde-amarelo. Do apreço ao caderno de caligrafia, cujas linhas perfeitamente simétricas delineavam gradativamente as letras e o caráter do estudante. Das capas coloridas dos livros didáticos, cujos conteúdos abriam as portas para o mundo do conhecimento. Do quadro-negro e do giz colorido, do líder da sala, da campainha barulhenta, do aroma apetitoso da merenda, da correria da molecada espevitada.
São fragmentos preciosos, guardados em algum lugar da memória, que remetem à nostalgia de um tempo verdadeiramente precioso. São apenas lembranças, mas de um período verdadeiro, genuíno, em que as pessoas carregavam consigo o respeito incondicional ao próximo. E de nossos dedicados e saudosos mestres, restam saudades. Muitas saudades!
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
Foto: Correio da Manhã/Arquivo Nacional
