Primavera em brisas


Não é a natureza que enlouqueceu. Somos nós que já não sabemos distinguir entre a leveza da brisa e o prenúncio da destruição
Há quem ainda acredite que o vento sopra para refrescar — quando, na verdade, sopra para lembrar.
Há tempos em que a brisa é apenas o ensaio do furacão. Mas nós, poetas de varandas, preferimos chamá-la de “primavera”.
Nos anos 80, os donos do mundo compraram cientistas para que dissessem que o planeta era eterno. Pagaram para que o apocalipse parecesse apenas uma hipótese mal calculada. E o povo, grato, continuou a queimar o amanhã em parcelas suaves.
Por aqui, imitamos o coro.
Enquanto uns afinavam violões para cantar “abençoado por Deus e bonito por natureza”, outros assinavam contratos, liberavam pesticidas, rasgavam matas e chamavam o lucro de milagre.
E assim, o país que se gabava de não ter furacões passou a cultivá-los em estufas de ignorância.
Hoje o vento muda de endereço — varre o Paraná, abana telhados e memórias.
Mas o que ruge lá fora é o mesmo que ruge dentro de nós: a soma de todas as mentiras sopradas em nome do conforto.
Não é a natureza que enlouqueceu.
Somos nós que já não sabemos distinguir entre a leveza da brisa e o prenúncio da destruição.
Pior ainda: enquanto ocorre a COP30, alguns ignorantes promovem ataques sistemáticos contra o que lá se discute. Apoiar “aquele lado”, jamais…
Ora, nobre ignorante, acaso furacões têm lado?
Alagamentos desviam de ideologia?
Quantas vezes não ouvi, bicho do Paraná, aplaudindo latifundiários que derrubam florestas em benefício próprio?
Esse é o verdadeiro desastre: a ignorância premiada e a memória silenciada.
Construímos o caos com nossas próprias mãos, voto por voto.
E agora, o caos segue em frente — mas com toda a calma do mundo, é claro.
Ah, toda nossa solidariedade aos atingidos. Mas quantos mais precisarão sofrer as consequências antes que o homem aceite que não governa o vento?
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
Imagem: Reprodução
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