O silêncio do Museu Paranaense sobre Dom Pedro II é injustificável

O Museu Paranaense, terceiro mais antigo do Brasil, simplesmente ignora o bicentenário de nascimento do homem que, em 1853, criou oficialmente a Província do Paraná ao sancionar a lei que separou a região de São Paulo
Por JAIR ELIAS DOS SANTOS JÚNIOR
O Brasil celebra, em 2025, o bicentenário de nascimento de Dom Pedro II. No país inteiro, instituições culturais, museus e centros de memória promovem exposições, seminários e homenagens ao imperador que marcou a formação nacional. Mas no Paraná, um silêncio chama atenção — e incomoda: o Museu Paranaense, terceiro mais antigo do Brasil, simplesmente ignora a data.
A omissão não é um detalhe. É um erro histórico.
Foi Dom Pedro II quem, em 1853, criou oficialmente a Província do Paraná ao sancionar a lei que separou a região de São Paulo. E foi ele também quem definiu o nome “Paraná”, estabelecendo a identidade administrativa que moldou tudo o que veio depois. É, portanto, impossível contar a história do estado sem tratar do imperador que lhe deu existência política.
E há mais. Em 1881, Dom Pedro II esteve pessoalmente no território paranaense. Visitou o litoral, observou a economia local, conversou com moradores e registrou em seu diário que o Rio Ivaí deveria ser explorado, reconhecendo ali um potencial estratégico para o desenvolvimento regional. Um imperador que via, no interior do Paraná, possibilidades que muitos governos levaram mais de um século para enxergar.
Mesmo assim, nenhuma sala, vitrine ou painel no Museu Paranaense lembra o bicentenário. Nenhuma exposição temporária. Nenhum destaque educativo. Nenhuma menção mínima.
Para uma instituição responsável pela preservação da memória do estado, isso não é apenas uma falha — é uma distorção. Um museu com quase 150 anos de história, criado ainda no século XIX, não pode se permitir apagar justamente o personagem que deu origem ao Paraná.
Ignorar Dom Pedro II em 2025 é negar ao público o direito básico à memória.
É enfraquecer a própria identidade histórica do estado.
É deixar de cumprir o papel central de um museu: contextualizar o passado para que o presente se compreenda.
Enquanto outras instituições brasileiras realizam mostras completas, revisitam documentos, expõem acervos raros e promovem debates, o Museu Paranaense opta pela indiferença. A pergunta é inevitável: por quê? Falta de planejamento? Falta de interesse? Ou simples desconhecimento do peso histórico que o imperador tem para o Paraná?
Qualquer que seja a resposta, o resultado é o mesmo: perde o público, perde a educação patrimonial, perde a história paranaense.
Há tempo para corrigir o rumo. Uma mostra documental, ainda que pequena, já seria um passo. Mas é preciso reconhecer a falha, assumir a responsabilidade e agir.
Dom Pedro II não é apenas um personagem nacional. Ele é parte estrutural da origem do Paraná.
E quando o principal museu do estado se cala diante disso, quem perde é a memória de todos nós.
(*) Jair Elias dos Santos Junior é historiador e escritor. Artigo publicado originalmente no Blog do Zé Beto
Foto colorizada: Mathew Brady/ Library of Congress
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