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O conturbado tempo de Jesus

Para compreender a ascensão de Jesus em meio a outros candidatos a messias é preciso estudar os movimentos “com Jesus e sem Jesus”

Um barril de pólvora. Me desculpem pelo clichê, mas não achei definição melhor para os tempos em que Jesus viveu e morreu. Numa região que conheceu diferentes domínios. Assírios, persas, gregos, romanos, otomanos e britânicos dominaram a Palestina. Sob o poder de Roma, a opressão focava os camponeses pobres, que eram massacrados. O conflito social transformou a região num reduto de bandidos salteadores, profetas e messias. Jesus era apenas mais um entre outros candidatos ao messias escolhido.

Ele, um judeu campesino pobre, analfabeto, nascido em Nazaré, uma pequena vila camponesa, com pouco mais de 400 habitantes. Em “Bandidos, profetas e messias – movimentos populares no tempo de Jesus”, os pesquisadores Richard Horsley e John Hanson, lançam luzes sobre a realidade social da Palestina do primeiro século. Simão Bar Giora, Judas, filho de Ezequias, e Bar Kokeba, eram alguns dos candidatos a messias da época. Bandidos, que lideravam grupos, entre outros, eles citam João de Gíscala e Tolomau. Entre os profetas, destacavam-se O “Egípcio” e Jesus, filho de Ananias (nome comum, à época).

A degradação social e econômica era extrema. De cada quatro peixes pescados, o camponês ficava com um; os outros eram o imposto dos romanos, mancomunados com a elite judaica. Daí a revolta de Jesus contra o Império Romano e, quem se revoltava, pagava com a vida. Mas não era só ele. Havia os que se organizavam em grupos. Os salteadores, por exemplo, viviam em cavernas e atacavam caravanas do exército romano. “Bandos de salteadores e outras forças rebeldes ofereceram valorosa resistência à décima segunda legião romana, numa posição fortificada no centro da Galileia”, descrevem os pesquisadores no livro.

Mas Horsley e Hanson são pesquisadores, portanto, produzem história e não teologia. Lançam mão de um estudo histórico sobre a sociedade da época. Abordam o Jesus Histórico, que nasceu e morreu naquele ambiente. Apelar para os Evangelhos, neste quesito, pouco ou nada vai acrescentar. Eles têm seu valor, mas não são biografia de Jesus. Tratam de fé e teologia. Contudo, o livro de ambos pode contribuir com os estudos teológicos, revelando situações históricas e sociais da época.

Para compreender a ascensão de Jesus em meio a outros candidatos a messias é preciso estudar os movimentos “com Jesus e sem Jesus”. Como as coisas foram se moldando e chegaram ao ponto de ele se tornar Deus. De volta ao livro, descobre-se que antes e depois de Jesus, a maioria dos líderes populares vinha do campo. Eles “nas palavras de Josefo reivindicaram a realeza, usaram o diadema real ou foram proclamados reis pelos seus seguidores”. Para entender tais movimentos, este livro é fundamental. Revela um Jesus contestador do “status quo” e um líder revolucionário no contexto de seu tempo.

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