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Monte Belo mantém a tradição dos carros de bois

Carreiro de 55 anos assume a condução do antigo meio de transporte que outrora puxava café e cereais e hoje é atração em tradicionais eventos no sul de Minas; Na foto, Eraso e, ao fundo, Chicuta, tradição do carro de bois é mantida em Monte Belo

Manguaras é um pedaço de madeira que se usava para bater feijão seco nos terreiros de secagem de café e cereais. O nome deu origem a um povoado, o Arraial das Manguaras, onde as desavenças eram resolvidas na paulada. Anos mais tarde, mais gente chegava ao local e, em 1938, nascia o município de Monte Belo, no sul de Minas Gerais. Com o passar dos anos, as brigas diminuíram, e a madeira teve finalidades mais nobres: construir casas, mourões de cerca, mangueirões de porcos e carros de bois. 

As juntas de bois puxando uma espécie de grande mesa de madeira virou tradição no município. Um dos carreiros mais antigos de Minas Gerais vive lá. É o seu Chicuta, apelido que o tornou conhecido. Se alguém perguntar por Francisco de Paula da Costa quase ninguém vai saber. Aos 88 anos ele está bem de saúde, mas se recolheu na pequena fazenda em que vive, num bairro rural de Monte Belo, chamado Rancharia. Os filhos dele não se interessaram em manter a tradição, que não é simples. Exige convívio para ganhar a confiança dos animais.

O bom carreiro convive com os bois, os trata com carinho, e eles retribuem (Foto: Acervo pessoal)

Mas apareceu um sujeito que não enjeita desafios e tem paixão pelo ofício. Eraso Ananias de Carvalho, nascido em Monte Belo, considera a lida com os bois uma terapia. No alto dos seus 55 anos se diz entusiasmado e cheio de energia, pois faz o que gosta. A felicidade lhe estampa no rosto ao abrir a porteira e adentrar ao pasto para juntar os bois e colocá-los no carro. Hoje, ele não os utiliza para puxar café e cereais da roça aos terreirões, paios e tulhas. Arruma as juntas e vai a tradicionais eventos festivos, em cidades da região, onde desfila com o antigo meio de transporte.

O gosto, às vezes, tem preço. As constantes viagens com o carro de bois contribuíram com o fim do casamento. Pai de um filho, que não tomou gosto pelo ofício, ele tem por companhia os bois enfileirados que saem pela estrada de chão rumo a mais um evento que revive a tradição. Como diz a música “Poeira” na voz de Duo Glacial: “O carro de boi lá vai gemendo lá no estradão/Suas grandes rodas fazendo profundas marcas no chão”. Ele os conduz pelos nomes. Na guia: Moreno e Sobrado; no pé da guia: Laranjo e Limoeiro; no pé do coice: Roseiro e Recreio e na junta de coice: Barão e Rochedo.

A realização de eventos com participação de carros de bois mantém a tradição em cidades do sul de Minas Gerais (Foto: acervo pessoal)

A paixão dele pela tradição carreira veio do pai, Amado Cândido de Carvalho. O filho o via conduzir os bois naquele antigo sul de Minas. “Cresci junto e fui gostando cada vez mais”, conta pelo celular no meio da roça. O entrevistei numa terça-feira. Mas no fim de semana, a enxada, o rodo e os demais apetrechos que usa na lavoura dão lugar à vara que conduz os bois. Hora colocá-los no carro e cortar estradas. “Não precisa sacrificar o animal, bater, nada disso, basta ganhar a confiança”, afirma ele, que lida com os bois desde bezerros. “Eles se acostumaram comigo, a gente se entende”.

Eventos para apresentação do carro de bois não faltam. Ele participa de dezenas por ano. Põe o chapéu, aperta o cinturão e conduz as quatro juntas de bois rumo aos desfiles. As pessoas se aglomeram para apreciar a novidade. Alguns perguntam sobre as peças do carro; ele explica. Canga, cambão, rodado, mesa, cabeçalho… cada uma tem sua utilidade. Os mais afoitos sobem para dar uma voltinha. Filmam e fotografam. “Andei de carro de bois!” Postam e festejam nas redes sociais. “Enquanto eu tiver vida, com as bençãos de Deus, não deixo essa tradição morrer”, garante Eraso.  

Eraso conduz o carro de bois e sua paixão pelos animais

Peças de um carro de bois
Junção dos animais
Canga: apoia no pescoço de dois bois, unindo o cabeçalho aos animais.
Cambão: liga o cabeçalho da junta aos bois.
Tamoeiro: couro que conecta a canga ao cambão ou ao cabeçalho.
Canzil: Estacas que atravessam a canga para prender o pescoço dos bois.
Estrutura do carro
Cabeçalho: Trave principal que liga a canga ao corpo do carro, onde a carga é transportada.
Mesa (ou Soalha): Superfície de madeira onde a carga é colocada.
Chêdas: Pranchas laterais da mesa, que formam a estrutura da carga.
Eixo: A barra transversal de madeira que une as duas rodas ao carro.
Rodas
Rodado: A roda do carro.
Meião: Peça central que une as duas cambotas, formando a parte circular da roda.
Cambota: Forma a circular da roda, fixada entre o meião e outras partes da roda.
Chumaço: Fica preso nas chedas e se encaixa no eixo para resistir ao atrito sem pegar fogo, emitindo um canto melodioso quando o carro se move.
Carga
Fueiros: Estacas de madeira que se encaixam nas chedas para amparar a carga.
Esteiras: Trançado de taquaras que se passa pelos fueiros e delimita a área de carga.
Outras peças e acessórios
Cantadeira: Parte do eixo que fica em contato com o chumaço.
Pigarro: Componente vertical no fim do cabeçalho para atrelar a junta de coice.
Chaveia: Fixada na cheda segura o chumaço e o eixo.
Vara: Pau utilizado pelo carreiro para conduzir os bois, pode ter um chocalho.

Foto: Donizete Oliveira

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