Maduro não é legítimo? Ótimo. Isso não torna Washington legítima no lugar dele.
O título é meu, mas o texto, li e reproduzo, dando crédito ao final:
‘Quem não reconhecia a legitimidade do governo Maduro pelo déficit democrático não pode, sem rasgar o próprio argumento, considerar legítima uma administração da Venezuela pelos EUA.
É simples. Democracia não é transmissível por procuração. Não vira legítima porque mudou o CEP do comando, nem porque passou a falar inglês.
Se o problema era a ausência de soberania popular, a repressão, a manipulação institucional e o uso do Estado como propriedade privada, a tutela externa não corrige isso. Apenas troca o agente da violação. O vício permanece.
Aqui mora a hipocrisia confortável: denunciar Maduro em nome da autodeterminação e, na frase seguinte, aceitar que outro país administre a Venezuela “temporariamente”, “tecnicamente”, “para o bem deles”. Colonialismo costuma vir assim: embrulhado em boas intenções.
Ou o princípio vale sempre – soberania popular, ainda que imperfeita, ainda que incômoda – ou não vale nunca. O que não dá é defender a democracia só quando ela obedece.
Maduro não é legítimo? Ótimo. Isso não torna Washington legítima no lugar dele. Democracia imposta continua sendo imposição. E tutela estrangeira continua sendo tutela, mesmo quando o tutor se acha virtuoso.’
Ao texto de Julio Benchimol Pinto, reproduzido na página Funcionários aposentados do BB, pouco temos a acrescentar a não ser que é incontestável que Maduro governou como ditador. Que a Venezuela não é uma democracia e que muitos bolsonaristas, que viviam dizendo que se Lula fosse eleito o Brasil viraria uma Venezuela, no fundo queriam uma ‘democracia da hipocrisia’, com o golpe que permitisse Bolsonaro no poder, sabe-se lá por quanto tempo. Quanto à intervenção militar dos EUA no país vizinho, até aqui mais parece um sequestro, cujo resgate será negociado com o sequestrado. A democracia americana, também, nos parece da hipocrisia.
Foto: RS/viaFotosPublicas
